(Arquivo/AT) O Brasil já fez boa parte da transição energética que muitos países buscam neste momento. Em meio às crises do petróleo dos anos 1970, o País investiu e se endividou para reduzir a dependência de petróleo importado, construindo grandes hidrelétricas e desenvolvendo o programa de etanol combustível. Hoje, a combinação dos investimentos mais recentes em energias solar, eólica e outras renováveis coloca nossas matrizes elétricas e energéticas entre as mais limpas do mundo. Isso não significa, no entanto, que possamos cruzar os braços à espera que os demais países cumpram com seus deveres frente às mudanças climáticas: nosso potencial de energia limpa ainda não explorado nos permite ir muito além, contribuindo também para a descarbonização de outras economias e, de quebra, impulsionando o nosso desenvolvimento socioeconômico. Afinal, podemos expandir nossa produção industrial justamente para disponibilizar os bens descarbonizados necessários para a maioria dos países cumprir as metas climáticas deles. Mas, nesse contexto, nossa transição contempla desafios específicos da nossa geografia. O primeiro deles é que precisamos convencer o resto do mundo da qualidade das nossas rotas de descarbonização, visto que, para alguns, elas possam parecer verdadeiras jabuticabas. Isso passa pela apresentação e defesa, por parte do País, das oportunidades de redução de emissões como o uso de carbono biogênico, como biocombustíveis e biomassas. Atualmente, essas rotas enfrentam preconceito em fóruns internacionais, em que são apontadas como inviáveis por seu teórico “prejuízo à floresta amazônica”. Precisamos demonstrar não só sua viabilidade em termos de redução de emissões, como nosso potencial de desenvolvê-las sem derrubar uma árvore sequer. Isso é estratégico para que os produtos fabricados com essa energia limpa sejam considerados verdes. Outra mensagem que precisamos propagar é que, para o mundo atingir o netzero em 2050, serão necessárias mudanças mais profundas na divisão global das tarefas. Ou seja, ao invés de continuarmos concentrando a produção industrial nos países do Norte global com matrizes fortemente baseadas em fontes fósseis, precisamos repensar essa organização, transferindo cadeias produtivas para onda há oferta de energia renovável barata. Nosso país não só cumpre esse requisito, como dispõe de outros predicados fundamentais para receber novos investimentos produtivos, como mão de obra qualificada, infraestrutura, portos e oferta de matérias-primas. Por fim, a transição obrigatoriamente tem de ser justa. Ou seja, essa alocação dos investimentos produtivos em terras brasileiras tem de atentar, na hora de promovê-los, para o aumento da complexidade da economia do País e para a geração de empregos de qualidade. À frente do G20 e diante da urgência dos temas relacionados à transição, o Brasil não pode perder a chance de promover essa agenda junto aos demais países do bloco. Normalmente, as especificidades da nossa economia são jabuticabas amargas, não merecedoras da associação a essa fruta tão particular e saborosa. Na transição, a história é diferente e precisamos convencer o mundo disso. *Diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética