(Divulgação) Amadeu e Josefa gostam de tainha. Com arroz branco soltinho e radiante, maionese como uma joia cravejada de legumes e farofa de banana e camarão, a tainha fica ainda melhor. Por isso, não foi surpresa vê-los sentados bem à minha frente, mãozinhas grudadas como só permite a intimidade dos amores antigos, na barquinha rumo à Ilha Diana, no último dia da Festa do Bom Jesus. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Afinal, na Ilha não faltaria tainha na grelha. A barquinha singrava o canal do Porto, o cheiro do óleo que garante o teco-teco sonolento do motor dançava pelos ares, e os dois ali, o joelho esquerdo dela colado no joelho direito dele, do joelhos às coxas, das coxas aos braços, dos braços aos ombros, colados, e das mãos já falei, não preciso repetir: pois ao amor basta o olhar, ainda que perdido no navio que passa ao lado da barquinha, na ponte da linha férrea ao longe ou na Base Aérea, mais longe ainda, com seus coqueiros espetando o céu. Sim, é de amor que se trata: de um pelo outro, e deles pela tainha. Como sei de tudo isso se nem conheço o Amadeu ou a Josefa? Aliás, sequer os vi por aí antes? Esse é um dos mistérios e deleites da crônica: o de saber mais do que a vida permitiria supor. Pois conto ainda que ambos moram em Santos e são aposentados: ela, professora; ele, portuário. O amor se condensa no paladar, como se Amadeu, a Josefa, fosse uma grande tainha – e vice-versa. Pronto. Bastou este preâmbulo filósofico para a barquinha calmamente fazer a sua parte e nos despejar no píer da Ilha Diana. De longe, ouve-se a música e o riso, e os aromas vão nos envolvendo como braços promissores de sabor. Tudo junto e misturado emanando da pracinha central, onde está a capela do Bom Jesus, em cuja órbita a festa nasce e cresce para todos os recantos da Ilha. Acelero o passo para não perder meu casal de vista. Rápidos, Amadeu e Josefa já estão no fundo da praça, em frente a uma longa e bela grelha com dezenas de tainhas deitadinhas, enfileiradas. Entre cochichos e sinais, escolhem o seu exemplar e o recebem em uma travessa de isopor. Encontram uma mesinha de canto. Sentam-se. Josefa esfrega as mãos, Amadeu abre um sorriso, e quando avança com garfo e faca em punho, a tainha pisca: “Amadeu, é verdade esse bilhete?”. Ele joga longe garfo e faca. Olha para Josefa, de boca aberta. A tainha continua: “sei que já estou mesmo grelhada, mas ainda tenho minha dignidade: não vai me espetar, né?”. “Você fala”, balbuciou. “E ainda bem que você ouve. Por que essa mania com tainha?”. “Porque você é saborosa”. “É, mas estou cheia de espinhas indigestas. Sou uma armadilha: saborosa e espinhenta. Como a vida”. “Come a vida?”. “Não, não como a vida. Nem é pra vocês comerem a vida. Basta vivê-la. E me deixar em paz!”. A tainha fechou os olhos e se acomodou na cama de alface. Amadeu levantou-se, pegou Josefa pela mão e saiu quase correndo para o píer. De agora em diante, o amor de ambos ganhará novos sabores, para consumir sem moderação: ao ponto, eis a vida.