(Canva IA) Dia desses, encontrei na rua um amigo que passava com um sorriso de ponta a ponta no rosto. Após os tapinhas no ombro, os soquinhos no braço, os cumprimentos de praxe, enfim, após cumpridos os rituais da evidente estima mútua, já fui direto ao teor da minha curiosidade: “Que sorrisão, rapaz!”. Ele alargou mais o sorriso e atiçou minha curiosidade: Mega-Sena? Time campeão? Aumento de salário? Carro novo? Filho na faculdade? Elevação espiritual? A resposta foi um balde de água fria: ele estava sorrindo tanto apenas por causa de um sonho. A curiosidade encolheu, mas fiquei ali balançando a cabeça como um João Bobo, cumprindo o papel de polidamente aguardar que ele contasse o sonho. Pois bem, ele não me decepcionou: disse que sonhou ter ganhado um foguete da Nasa no sorteio da Nota Fiscal Paulista. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Que eu saiba, pouca gente controla os próprios sonhos. Eu mesmo ao longo da vida lembro de apenas um ou dois cujos rumos não estavam me agradando. O que fiz? Pedi licença, entrei na cena e mudei tudo. Mas eu era adolescente e os sonhos, ainda os vivia acordado. Com uma ponta de ressentimento por ter envelhecido mais do que o tempo me faria supor, caí na gargalhada com o sonho de meu amigo. Sorte minha que ele também riu: nem ele levou a sério o próprio sonho, que unia disparidades irreconciliáveis. Afinal, se eu chegasse aqui com um foguete da Nasa, o Leão do Imposto de Renda lamberia os beiços e nem a Nota Paulista sobreviveria. Na minha aridez onírica, como eu não tinha sonho algum para contar, meu amigo e eu nos despedimos. O sol estava quente, mas enviesado, atravessei a rua em busca da sombra que se estendia apenas pela outra calçada: assim faria muita gente que precisa se desvencilhar do sol para amá-lo de maneira plena. Segui pela rua meu caminho, mas não é que o sonho de meu amigo foi junto comigo? Não pude deixar de pensar no que faria se ganhasse um foguete da Nasa, no sorteio da Nota Fiscal Paulista. Será que iria bancar o bonzão mostrando meu foguete para os amigos, entre eles o sonhador que já virava a esquina? Ou faria uma visita festiva à Lua, repleta de versos e equações, reconciliando ciência e poesia? Poderia chegar de foguete no campo de batalha e parar alguma das tantas guerras que ainda há por aí. Ou iria à padaria da esquina de foguete, só para impressionar quem vai de carro. Levaria de foguete minha amada Lu para jantar em lugar chique e entregaria a chave na mão do manobrista. Mas se tivesse que parar na rua, pagaria o estacionamento regulamentado com cascalhos fresquinhos de Marte. E se a CET me multasse, mandaria o boleto para o espaço – literalmente. Com o universo inteiro ao meu dispor, as próximas férias seriam em Alfa Centauri ou em algum recanto charmoso de Andrômeda? Melhor pesquisar o preço do pedágio cósmico antes de definir. De qualquer forma, brincaria de estilingue em um buraco negro, de pulsar em um quasar e trocaria a anã branca pela anã marrom. Mas, pera lá... será que um mero foguete conseguiria tudo isso? Mais garantido seria faturar um disco voador. Olha quem fala: logo eu, que até hoje só ganhei R\$ 10,00 no sorteio da Nota Paulista.