(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) O que você faz na hora em que a vida passa? Eu passo junto. Mas se ela não quiser? Fico no meu canto: vai que a vida engasgue, derrape, estremeça com a minha presença ao passar? Deixo então que vá, passe em paz. Se pudesse, só apagaria as velinhas por dever de calendário, sem acrescentar rugas ao rosto, fios brancos ao cabelo, sem acrescentar passamento algum ao que sou, ao que pretendo ter sido. Fica-se livre para fazer o que bem entender, na hora em que a vida passa. Pode-se assistir à tevê estirado no sofá, ajustando os pés para o alto até o dedão encaixar na cabeça do protagonista daquela série chata. Ou, sem cerimônia, abrir a caixa de chocolate prometida para a Páscoa. Ou, ainda, pôr o braço para fora da janela na hora da chuva, sentir os pingos como dentadas geladas de alma molhada. Quem sabe correr sem parar, deixar a cidade para trás, só para ter o prazer de ouvir o farfalhar da mata sob meus passos, pelas florestas do mundo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O que você faz na hora em que a vida passa? Deixa o sol ir na frente e vai atrás? Pede o maior sorvete, com duas coberturas? Prende o fôlego e atravessa a rua, na confiança íntima de que o trânsito haverá de respeitar a doçura do largar-se? Permite-se ficar empapuçado com aquela empada de palmito a mais? Passa o tempo contando e recontando as folhas da árvore na esquina, obtendo um resultado diferente a cada vez? Cai no mundo preenchendo uma noite vazia? Rasga as roupas novas, abre o guarda-roupa e procura as peças surradas e suas histórias? Dá risada quando chega ao ponto sete segundos atrasado para pegar o ônibus? Canta boleros no chuveiro? Ou abre o peito a todas as melodias? Pois a vida há de passar de qualquer jeito, quer se queira, quer não. Às vezes, vai dar uma tristeza, vontadezinha de passar junto, mesmo que ela não queira — ainda. Será naqueles momentos em que, ao olhar para os lados, verá os amigos passando, um a um, deslizando no espaço em um imenso tobogã de estrelas. Mas é a vida quem haverá de decidir. Sempre. Confio: ela deve saber o que faz. Enquanto espero, tento pensar em uma nova frase para esta crônica, mas nada me ocorre: quando passa, a vida nos tira até a palavra.