(FreePik) Capacidade: meia dúzia de passageiros, algumas centenas de quilos e milhares de histórias que sobem à cobertura ou descem ao fosso, dependendo do humor de cada dia. Eis o elevador, que não admite erros ou hesitações: portanto, fique atento antes de apertar o botão, estude o painel e evite atrasos ou mal-entendidos na jornada. Afinal, ninguém merece pular fora no andar errado e dar de cara com aquele vizinho implicante, que vive reclamando dos panos de prato de coraçõezinhos secando na sua janela. Mas, se não admite erros, o elevador nosso de cada dia é implacável com desatenções. Como o caso daquele gaiato que embarcou em modelo comercial, antigo, movido a manivela, cuja porta ainda era um gradil. De uniforme e luva, voz respeitosa, o ascensorista: “Qual andar, senhor?”. Ele: “Qualquer um, já entrei no prédio errado...”. E o rapaz meticuloso, que perdeu uma entrevista de emprego, pois não conseguia passar a soleira da cabine? Ao chegar ao prédio, apertou o botão e leu na placa: “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”. Em pânico, começou a abordar cada pessoa no saguão: “Você é o mesmo?”. Dez anos depois, barba no peito, olhos vidrados, arrastou-se até mais um homem e repetiu a única frase que lhe saiu da boca nesses anos todos: “Você é o mesmo?”. Para seu espanto, o homem respondeu: “Sim, sou eu, Mesmo da Silva”. O rapaz meticuloso desabou: de repente, a vida perdera o sentido. Já o Mesmo da Silva recebeu o nome do pai. Após ser chamado às pressas à maternidade onde sua esposa dera entrada em trabalho de parto, enquanto esperava o elevador, apaziguou o nervosismo lendo em voz alta, como um mantra, placa idêntica à que foi perdição para o rapaz meticuloso. Como ainda não havia escolhido nome, decidiu inspirar-se na placa que o acalmara, no desejo de que o filho nascesse abençoado pela temperança. Consta que deu certo: era Mesmo da Silva e da paz. Todo mundo sabe, é nos elevadores que se formam os maiores meteorologistas do País. Basta haver dois ou mais ocupantes para que se saia dali com a previsão completa da semana. Certa vez, um amigo meu voltou ao apartamento para pegar um guarda-chuva após uma senhora convencê-lo no elevador da tormenta iminente. Quando saiu à rua, não havia uma nuvem sequer no céu. Mas se os elevadores se prestam às ciências do clima, também são espaços de mistério. Se assim não fosse, o cinema não lhes daria tanto destaque. Quem se lembra do filme O Iluminado, do Kubrick, em que o Jack Nicholson faz a cara de louco mais louca da telona? Uma das cenas marcantes é a do rio de sangue que se projeta pelo corredor do hotel quando se abrem as portas do elevador. Já uma lenda urbana que também virou filme reza que se você apertar a sequência de andares dois, cinco, seis e dez, ao chegar no décimo, as portas se abrem a uma dimensão paralela. De uns tempos para cá, virou moda colocar câmeras nos elevadores, inibindo o convite à espontaneidade: pois é nas viagens solitárias, confinados na cabine, que cada um se sente livre para ser o que é. Há os que dançam e pulam, desafiando o elevador: “Quero ver você cair!”. Há aqueles que conferem as roupas e a maquiagem, se há espelho; outros, ao espelho, fazem caretas, requebros e soltam gargalhadas. Há quem cante, há quem xingue, baixinho ou a plenos pulmões. Há também quem se entrega a maiores transgressões, como tirar meleca do nariz e grudar nos botões, ou soltar um pum de herança ao próximo passageiro. Porém, naquele momento em suspenso, a maioria só pensa na vida, nem se dá conta do tanto que temos a aprender com os elevadores. Pois nem sempre quem sobe está numa boa e quem desce está numa pior: tudo depende de saber onde e como se quer chegar.