(Pixabay) As horas passam e é preciso escrever. As horas são uma ficção, piada de mau gosto dos relógios. E o que são os relógios? Como certa vez definiu a pesquisadora e escritora Marie-Louise Von Franz (1915-1998), são o símbolo de um universo sem alma. Mas o relógio faz pouco caso: na parede da cozinha, acima de mim, deixa as horas passarem. E é preciso escrever. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Poderia contar que ainda ontem estive no pronto-socorro, de barriga dura e olhar macambúzio, terrivelmente entretido com alguma coisa que não deveria ter comido – por que não conseguimos saber o que deveríamos ou não comer antes de fazê-lo, mas só bem depois, já no pinga-pinga do soro na veia? – Poderia então contar do pronto-socorro lotado, das gentes lado a lado entre ais e uis, amarradas aos seus mal-estares, mas não acho uma boa ideia falar sobre doença: seria dar muita trela ao que sempre estará, de qualquer forma, conosco. Mas as horas passam e é preciso escrever... Poderia também contar do dia do melhor banho de mar da vida. Final de tarde, verão, Peruíbe. A praia vazia, o sol rasgado por trás do verde da Jureia cintilava no mar. Eu era quase adolescente, o que dava margem para ser ainda mais criança a cada vez que a onda investia com aquela peculiar fúria carinhosa, dissolvendo a eternidade em um sopro de espuma. Poderia ainda contar sobre a água sempre morna desde então, na memória que jamais há de se apagar. Pensando bem, o tema é banal demais: há tanta gente, tantos mares. Mas as horas passam e é preciso escrever... Quem sabe, poderia contar do dia em que fui atropelado na calçada, em Guarujá. Vinha caminhando com uma pizza nos braços pela avenida D. Pedro I. Entretido com o aroma que brotava da caixa, nem percebi os gritos dos pneus derrapando às minhas costas. Quando dei por mim, voava para longe em cima da caixa da pizza, acima das nuvens. Lá embaixo, o carro que me acertara desaparecia em meio a centenas, milhares, depois ainda milhões de pontinhos coloridos, que todos juntos irão construir o que chamamos de vida. Poderia contar como voltei do céu, mas há limites para a fantasia: talvez nem sequer tenha regressado, por lá ainda esteja. Só sei que as horas passam e eu preciso logo escrever... Poderia então contar sobre a ocasião em que fui fazer pipoca e a lata de óleo (era lata de ferro ainda!) caiu no chão e eu, cheio de boa vontade, me dispus a limpar com um esfregão; ou de quando dois anjos sussurravam do lado de fora da janela do meu quarto, pairando leves no ar; ou daquela ventania enfurecida, em que as portas e janelas batiam pelas casas vizinhas, que fez brotar do redemoinho um saci; ou, ainda, do dia em que a polícia cercou o meu prédio em busca de um ladrão misterioso jamais descoberto. Poderia contar tanta coisa, mas as horas passaram todas, não há mais tempo: a crônica acabou, e eu não consegui escrever sobre nada!