(Gerada por IA) Aguardo o momento de ser luz a alguém. Parece pretensão, mas é só o caminho inequívoco da existência. Não valem os filhos, os pais ou a esposa: nesse caso, é luz que ofusca em todas as direções, sol em manhã plena de verão. Serei luz a alguém de quem eu talvez nem desconfie da existência, mas que me veja ali, ao redor, lumiar que ampara e sustenta um pouco de seu mundo. Paradoxalmente, ele seguirá seu rumo sem se dar conta disso. Se um dia eu faltar, e sei que vou faltar — eis mais uma das ironias da vida —, só então ele terá consciência de que eu era uma das luzes a compor a paleta de suas cores. E se entristecerá, mais por si do que por mim, aliás, como tem de ser: afinal, uma de suas luzes se apagou. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Acho que não estou sendo claro. Mas clareza nunca foi o meu forte. Prefiro os recônditos, os nichos onde o abandono é apenas aparente, mero disfarce para pulsar como se deseja, livre de amarras ou julgamentos que nem de longe causam tormento, mas um bocejante fastio. Voltemos à luz, para ser mais claro, quem sabe — ah, como os trocadilhos infames me fazem sorrir, mesmo quando a crônica não tenha graça nenhuma. Percebi que essas luzes no meu caminho existiam quando foram se apagando: Gal Costa, Erasmo Carlos, Rita Lee, Tarcísio Meira. Nasci e cresci com eles, jamais imaginei que deixariam de cá estar. E eis que um dia não mais estavam: a sensação era de que partes do meu mundo haviam sido arrancadas. Mas ser a luz de alguém na vida não se restringe a pessoas famosas. Sabe aquela pessoa que você fica anos sem ver, mas jamais a deixa de chamar de amigo? Pois recentemente recebi a notícia de que um amigo assim, de cada dia, cada década da minha existência, está doente. Muito. O temor de que o tempo esteja correndo mais rápido para ele já é a mim uma dor maior, do que se fosse o meu tempo a encolher-se. Pois é mais fácil aceitar o próprio fim do que vivê-lo pouco a pouco, em cada luz que se apaga.