(Imagem Ilustrativa/FreePik) O porto que o Brasil precisa ainda não existe porque ele exigiria algo que historicamente evitamos enfrentar: escolhas que geram desconforto real. Preferimos crescer empurrando problemas para frente, terceirizando impactos para a cidade, para o trabalhador e para a próxima gestão. Crescemos, é verdade. Evoluímos em partes. Mas amadurecer como sistema integrado continua sendo uma dívida antiga. Criamos portos cada vez mais eficientes para o navio e cada vez mais hostis para tudo ao redor. A lógica é simples e perigosa: se o cais funciona, o resto se ajusta. Não se ajusta. A conta chega em congestionamentos crônicos, em conflitos urbanos permanentes, em perda de competitividade e em desgaste social silencioso. O Brasil normalizou o atrito como se fosse parte natural do desenvolvimento. O porto que precisamos não existe porque ainda premiamos volume e não fluidez. Celebramos recordes enquanto ignoramos o custo invisível de cada operação mal integrada. Caminhões parados por horas, filas normalizadas, janelas estouradas, decisões reativas, improviso travestido de solução definitiva. Isso não é resiliência, é acomodação institucionalizada. Há também um tabu raramente enfrentado: o porto brasileiro cresceu mais rápido do que sua capacidade de governança. Multiplicamos atores, interesses, contratos e agendas, mas não criamos um centro real de coordenação. Cada elo otimiza o próprio resultado e o sistema como um todo perde eficiência. Quando todos ganham localmente e o País perde globalmente, algo está estruturalmente errado. O porto que o Brasil precisa exigiria romper com a lógica do curto prazo. Exigiria dizer não a expansões sem acesso, a investimentos sem contrapartidas urbanas, a soluções técnicas que ignoram pessoas. Exigiria tratar mobilidade, habitação, qualificação profissional, segurança e tecnologia como partes inseparáveis da infraestrutura, e não como temas secundários tratados apenas quando a crise já se instalou. Ele também não existe porque ainda romantizamos a ideia de que tecnologia resolverá tudo. Automação sem cultura cria ilhas de excelência cercadas por caos operacional. Dados sem integração produzem relatórios sofisticados e decisões equivocadas. Inteligência artificial sem inteligência institucional apenas acelera erros antigos. O problema não é falta de sistemas, é excesso de desconexão entre eles. Outro ponto pouco discutido é o impacto humano desse modelo. Portos operam vinte e quatro horas, mas pessoas não são máquinas. Turnos mal desenhados, pressão constante e ausência de previsibilidade corroem talentos e lideranças. O setor fala pouco sobre isso, mas paga caro em rotatividade, adoecimento e perda de conhecimento crítico. Falta ainda coragem para admitir que o modelo atual consome lideranças. Gestores passam mais tempo apagando incêndios do que construindo futuro. Isso não é falha individual, é desenho errado. Portos modernos exigem líderes sistêmicos, capazes de dialogar com governo, empresa, cidade e sociedade ao mesmo tempo. Esse perfil ainda é exceção, quando deveria ser regra. O porto que o Brasil precisa ainda não existe porque ele exigiria abandonar a ideia confortável de que desenvolvimento é inevitável. Não é. Desenvolvimento é consequência de planejamento, disciplina, integração e escolhas difíceis. Países que avançaram decidiram incomodar interesses estabelecidos. Nós seguimos conciliando tudo e resolvendo pouco. Criar esse porto significará enfrentar conflitos reais, redistribuir custos, rever prioridades e assumir responsabilidades que não cabem em um mandato. É exatamente por isso que ele ainda não existe. A pergunta não é se o Brasil tem demanda para esse porto. A pergunta é se temos coragem para construí-lo como ele precisa ser, e não como é mais conveniente.