(Carlos Nogueira/Arquivo AT) Fim de ano, época de celebração, mas também de planejamento para 2025. No setor portuário, historicamente cauteloso e conservador, muitos gestores se perguntam: como acompanhar a evolução tecnológica em tempos de transformação constante? Diante de um mercado cada vez mais dinâmico, é fundamental avaliar se os modelos de contrato de escopo fechado ainda fazem sentido ou se há espaço para métodos mais flexíveis, como as metodologias ágeis. Acostumada com os rígidos projetos de infraestrutura, é comum basear projetos de desenvolvimento de sistemas nos mesmos moldes, mas frequentemente o mercado apresenta novas exigências, as tecnologias mudam e algumas premissas iniciais mostram-se imprecisas. As adaptações tornam-se urgentes, mas o contrato não prevê flexibilidade. O resultado costuma ser atraso nos prazos, discussões sobre aditivos e conflitos entre a parte contratante e a fornecedora de TI. Esse tipo de impasse não é incomum, especialmente em setores mais tradicionais, como o portuário. Contratos de escopo fechado funcionam bem quando o cenário permanece estável, mas perdem eficácia diante de mudanças inevitáveis do mercado e da própria evolução tecnológica. Para contornar esses problemas, muitas empresas — inclusive do segmento portuário, mesmo reconhecidamente cauteloso — começam a adotar metodologias ágeis. Em vez de se prender a um documento extenso e estático, as equipes trabalham em ciclos curtos (sprints), entregando partes funcionais do produto e validando-as continuamente. Dessa forma, eventuais ajustes são identificados e incorporados já nas próximas etapas, evitando a avalanche de aditivos contratuais e problemas de escopo. Além disso, a formação de equipes multidisciplinares (squads) ajuda a integrar diferentes áreas de conhecimento, tornando o desenvolvimento mais colaborativo. Reuniões diárias e indicadores de produtividade em tempo real contribuem para a rapidez na resolução de problemas e para o acompanhamento constante do progresso do projeto. Diante desse modelo de trabalho, surge também a necessidade de rever a forma como os contratos são estabelecidos. Em vez de “engessar” a relação entre clientes e fornecedores em um documento com escopo fechado, empresas de TI têm proposto acordos baseados na alocação de equipes, com pagamentos recorrentes e ciclos de entrega curtos. Assim, caso o cliente não perceba mais valor ou entenda que o projeto precisa ser alterado significativamente, é possível cancelar ou revisar o contrato sem incorrer em multas elevadas, dependendo dos termos previamente acordados. Além disso, há a possibilidade de classificar esses investimentos como despesas operacionais (opex), o que facilita o fluxo financeiro para muitas empresas. Esse modelo também promove maior transparência, pois cada entrega é validada e revisada em tempo hábil, assegurando que o software atenda às necessidades reais do negócio. Às vésperas de 2025, o setor portuário enfrenta desafios como automação, digitalização e integração de sistemas, exigindo soluções rápidas e eficazes. Embora contratar projetos de escopo fechado ainda seja uma prática arraigada, a experiência mostra que a flexibilidade das metodologias ágeis traz resultados mais sólidos em cenários de alta incerteza, como é a de projetos de software. A reflexão de final de ano convida à análise: manter um modelo tradicional e correr o risco de entregar softwares defasados ou abrir espaço para inovações que geram valor contínuo ao negócio? O ponto de partida para 2025, portanto, pode ser repensar os formatos de contratação e a forma de conduzir projetos de TI, a fim de garantir que novas ferramentas portuárias estejam sempre alinhadas às demandas do mercado — sem as surpresas e atrasos característicos de abordagens ultrapassadas. Em um ambiente em que a agilidade já é decisiva, inclusive em setores conhecidos por sua tradição e prudência, o momento é propício para inserir novas práticas de desenvolvimento e gerenciamento de projetos. Este fim de ano pode ser o marco para reavaliar posturas e, em 2025, consolidar uma cultura de entregas contínuas, colaboração multidisciplinar e adaptação constante — mesmo nos portos mais tradicionais. *Engenheiro de computação, sócio-fundador da T2S, professor e pesquisador na Fatec Rubens Lara