Vale a pena disputar essa Libertadores?

O torneio se notabiliza cada vez mais pelas falhas de organização e pelo descumprimento das regras

Por: Alexandre Fernandes  -  28/11/18  -  19:42
Polícia precisou agir para conter torcida do River e evitar prejuízos maiores
Polícia precisou agir para conter torcida do River e evitar prejuízos maiores   Foto: Santiago Viana/AFP

A Copa Libertadores da América era para ser uma das competições mais legais do mundo. Todo ano reúne potências de um continente com peso grande na história do futebol e não tem um desnível qualitativo tão grande entre as equipes, como temos visto na Liga dos Campeões da Europa. Mas as constantes falhas de organização e o descumprimento de forma descarada do regulamento levantam a questão: vale tanto a pena o esforço para se garantir num torneio cada vez mais avacalhado e promovido por uma entidade com pouca credibilidade?


As lamentáveis cenas que vimos no Munumental de Núnez, pouco antes do segundo jogo das finais entre River Plate e Boca Juniors, e a bateção de cabeça dos dirigentes na tentativa de marcar uma nova data para essa partida são só o desfecho da edição em que, talvez, mais tenhamos dito e ouvido que a Libertadores é uma várzea e a Conmebol, uma vergonha.


Só o River Plate foi suficiente para evidenciar as falhas de organização e o descumprimento da regra citados acima. E isso desde o início, quando jogou a fase inteira de grupos com um atleta irregular. Não foi punido porque ninguém avisou a Conmebol. Ao contrário do que aconteceu com o Santos no caso Sánchez. E nas semifinais, contra o Grêmio, seu técnico Marcelo Gallardo ignorou a pena que havia recebido de não dar instruções ao time no jogo de volta. E assumiu tudo na maior cara de pau.


Ônibus da equipe foi atacado e teve vidros quebrados antes da segunda partida
Ônibus da equipe foi atacado e teve vidros quebrados antes da segunda partida   Foto: Getty Images

Depois de ter sua autoridade ignorada pelo River, a Conmebol, agora, é colocada contra a parede pelo Boca, que não quer disputar a final. E para isso, o clube conta com uma jurisprudência a seu favor. Afinal, em 2015, também num duelo com o River, mas pelas oitavas de final, o Boca foi eliminado pela entidade porque torcedores do time atingiram atletas rivais com um spray de pimenta. Então, como fica agora, depois que jogadores do Boca foram feridos por pedras lançadas pela galera do River?


Lembrando: estamos falando só da edição deste ano da Libertadores. Em 2013, por exemplo, tivemos um caso extremo, quando corintianos mataram um garoto boliviano durante uma partida. O clube pagou sua pena disputando alguns jogos com portões fechados e tudo bem. No ano seguinte, no Peru, o volante Tinga, então no Cruzeiro, foi vítima de racismo de torcedores do Real Garcilaso. Punição: multa de R$ 28 mil. Dinheiro de pinga até para um clube peruano.


Estádio Luigi Ferraris foi oferecido para receber final da Libertadores
Estádio Luigi Ferraris foi oferecido para receber final da Libertadores   Foto: Divulgação

Enfim, em toda a história da Libertadores a Conmebol teve várias oportunidades para impor respeito e as aproveitou pouquíssimas vezes. E mesmo nas vezes em que procurou demonstrar pulso firme, errou a mão ou não foi coerente com seus critérios. Isso tudo afeta demais a credibilidade da competição. O problema é que os clubes, ao mesmo tempo que protestam, não fazem nada para mudar. Pior, fazem de tudo para disputar o torneiono ano seguinte. Como diz a música do Calcinha Preta, "você não vale nada, mas eu gosto de você".


O Santos, por exemplo, anunciou que iria à Corte Arbitral do Esporte por não concordar com a punição que recebeu no caso Sánchez. Quer ser ressarcido com dinheiro e participação na edição do próximo ano. Eu entendo que é difícil chegar para o torcedor e dizer "vamos abrir mão da Libertadores". Não estamos mais nos anos 60, quando o próprio clube resolveu não disputar uma edição porque, à época, ela não tinha o mesmo prestígio, e até o mesmo nível, que o Campeoanato Paulista. Mas é muito esquisito o Santos, depois de questionar a idoneidade da Conmebol, chegando ao ponto de subir uma hashtag #verguenzaconmebol, querer disputar uma Libertadores do jeito que ela é.


E a questão não tem a ver só com o Santos. O Cruzeiro também foi extremamente prejudicado este ano, naquela absurda expulsão do zagueiro Dedé contra o Boca Juniors. Todo clube brasileiro tem uma bronca para reclamar na Libertadores. Mas ninguém toma uma atitude. Ficam sempre com o discurso utópico da ação conjunta, da união dos clubes, da cobrança de atuações mais determinantes da CBF nos bastidores... Aí, realmente, fica difícil. Se ainda fosse pela questão do dinheiro, até compreenderíamos, mas não é. A premiação, embora alta, não é condizente com a de uma competição com status de maior da América do Sul.


O Brasil ainda tem muito, mas muito a melhorar em organização e segurança no futebol, mas podemos dizer que está um passo à frente de quase todos os outros países do continente. Por isso, não dá para aceitar uma Libertadores do jeito que está. O Brasil representa um mercado importantíssimo para a Conmebol, já que valoriza bastante os torneios continentais. Quem sabe promovendo um boicote, ainda que temporariamente, a entidade se coce para, enfim, entregar uma Libertadores decente. Fica a reflexão para os dirigentes.


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