Que ano hein, Jair?

Técnico deixou o Botafogo em alta para ser alvo de críticas no Santos e correr risco de rebaixamento no Corinthians

Por: Bruno Gutierrez  -  15/11/18  -  19:39
Depois de um trabalho ruim no Santos, Jair Ventura não coleciona bons resultados no Timão
Depois de um trabalho ruim no Santos, Jair Ventura não coleciona bons resultados no Timão   Foto: Alexandre Schneider/Getty Images

Qual seria a conversa entre o Jair Ventura de dezembro de 2017 e o Jair Ventura, técnico do Corinthians? Acredito que a primeira frase seria: "Não, não faça isso! Não deixe o Botafogo!". Que o futebol é uma montanha-russa, composta altos e baixos, o treinador sabia. O que ele não poderia imaginar é a descida do brinquedo fosse tão grande, sem parecer ter fim.


Convenhamos que os sinais do início do ano estavam lá. Só que poucos quiseram acreditar. Jair já havia extraído tudo o que podia do Botafogo e a queda de rendimento do time no Brasileirão, onde chegou a sonhar novamente com a Copa Libertadores, foi nítida. Para quem não acompanha o futebol carioca, o único motivo seria o desgate físico (desculpa dada pelo técnico), ja que o clube da Estrela Solitária começou a temporada antes dos outros por causa da competição sul-americana. Mas, não era só isso. Houve situações no Botafogo que cansaram Jair Ventura como o caso do atacante Roger, e houve casos que cansaram o clube em relação ao treinador, como a própria renovação de contrato.


No Santos, ele não era o preferido. O primeiro nome de José Carlos Peres era Abel Braga, que optou por seguir no Fluminense. O segundo foi Zé Ricardo, que fez uma boa campanha de recuperação com o Vasco da Gama, levando o time à Libertadores. Jair era a terceira opção. Chegou com desconfiança por parte da torcida. Mas, até para não sacrificar o técnico, o foco no Peixe era a montagem do elenco, ou melhor, a falta dela.


O ano começou e o time simplesmente não teve cara. O torcedor santista não enxergava mais um padrão no Santos. Atuações medonhas, piores que da época Levir Culpi, onde o time era puro pragmatismo, mas tinha ainda algum resultado. Nos primeiros meses, o elenco frágil levou a culpa. Mas com o tempo, ficou impossível manter esse discurso.


E por mais que as críticas viessem, o treinador manteve sempre o discurso de evolução do time e negando aquilo que os olhos mostravam a todos. Não encaixou, Jair. Não deu liga. Houve jogos em que o Santos deixou o gramado sem ameaçar o gol rival. Contra o Nacional, no Uruguai, nem chute a gol teve. Contra o Estudiantes, na Argentina, um gol (duvidoso) e achado. A vaga no mata-mata da Libertadores veio por milagre.


No Brasileirão, o técnico se agarrava a um ou outro resultado para sobreviver no Peixe. O mesmo time que goleava o Vitória, era goleado pelo Internacional. A pausa da Copa adiou o inadiável - e talvez José Carlos Peres pague o preço de demorar a tomar uma atitude com a perda da vaga para a Libertadores por isso.


No fim, deixou o clubeperto da zona de rebaixamento, na 15ª colocação, com 15 pontos. Em39 jogos, foram14 vitórias, 10 empates e 15 derrotas, um aproveitamento de 44,4%.


O Jair do Corinthians não tem sido muito diferente da versão santista. De novo, o discurso da evolução. De novo, um time que não ataca. De novo, a culpa na falta de elenco. Deu a falsa impressão de grande trabalho ao eliminar o Flamengo na semifinal da Copa do Brasil, mas a justiça foi feita na decisão contra o Cruzeiro. O trabalho desenvolvido por Jair Ventura não merece títulos, mas uma reflexão sobre onde o caldo entornou. Onde o técnico gastou o crédito conquistado em um grande trabalho no Botafogo.


O problema é não ver novidade por parte de Jair. Um pragmatismo que em campo se reflete em apresentações apáticas. No Corinthians, claro, de forma mais escancarada. Por mais que o corintiano goste de um pragmatismo - vide a admiração por Tite e Mano Menezes, de nada adianta isso sem resultados. Assistir ao Corinthians, como foi assistir ao Santos, é penoso. São 90 minutos intermináveis, que se arrastam para quem acompanha futebol e de sofrimento para o torcedor.


Cuca mostrou que, no Alvinegro, a culpa não era do elenco. Mesmo sem Sánchez, Bryan Ruiz ou Derlis González, o treinador trouxe um outro padrão, uma cara nova, devolveu um pouco de alegria ao time. E olhem que Cuca é conhecido por ter inteligência emocional frágil e, por vezes, acabar perdendo o grupo por isso.


Ao corintiano resta rezar e torcer contra aqueles que estão atrás na tabela do Campeonato Brasileiro. Se não dá para esperar muito de seu treinador, pelo menos que ele não tenha um desempenho pior do que seus rivais na luta contra o rebaixamento. Se isso não ocorrer, o fantasma de uma rodada decisiva contra o Grêmio, no Rio Grande do Sul, vai voltar a assombrar o torcedor e Andrés Sanchez.


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