[[legacy_image_357540]] No momento em que o Estado do Rio Grande do Sul enfrenta a sua maior tragédia climática, somos chamados a refletir não apenas sobre o caráter solidário do povo brasileiro, mas também sobre a nossa persistente inabilidade em lidar com as causas subjacentes dessas catástrofes. Enquanto mais de 1,5 milhão de pessoas são afetadas, o espírito de solidariedade se ergue, mas também emerge uma crítica pertinente: por que, como sociedade, esperamos sempre pelo desastre para agir, em vez de trabalhar proativamente para evitá-lo? A solidariedade, esse pilar da humanidade que se concretiza na ação de ajudar, amenizar ou diminuir a dor e a necessidade, se manifesta de maneira marcante em momentos como este. Pessoas se mobilizam, doam recursos, tempo e esforço para socorrer os afetados. Principalmente aqueles que o fazem sob o manto do anonimato, sem a necessidade dos holofotes tão comuns em momentos como esse. Mas, de maneira geral, a generosidade do povo brasileiro, especialmente dos gaúchos neste momento de crise, mostra-se como uma luz em meio à escuridão da tragédia. Entretanto, essa assistência contrasta com a falta de preparo e prevenção diante de eventos climáticos recorrentes. Ano após ano, testemunhamos enchentes e deslizamentos, enquanto as soluções definitivas permanecem distantes. Não me parece razoável admitir que eventos climáticos como esse podem ser ditos como imprevisíveis ou coisa que o valha. É como se estivéssemos presos em um ciclo vicioso, em que a ação só é desencadeada pela emergência, mas nunca antecipada para evitar a calamidade. É importante frisar que a atual crise no Rio Grande do Sul não é apenas uma questão de desastre natural. Ela é o resultado direto do descaso com o meio ambiente, da irresponsabilidade dos governantes com a coisa pública e do negacionismo científico que permeia nossa sociedade. Pesquisadores e professores alertaram sobre os riscos iminentes, mas foram ignorados em prol de interesses políticos imediatos. Até porque trata-se de uma pauta de pouca reverberação política – leia-se, votos na urna – daí o silêncio ensurdecedor de grande parte da classe política brasileira. É hora de repensarmos nosso modelo de atuação. A solidariedade é fundamental, mas não pode ser o único recurso diante das tragédias. Precisamos investir em medidas preventivas, em políticas ambientais eficazes, em educação e conscientização da população. Não podemos continuar esperando pelo próximo desastre para agir. É fundamental que não necessitemos mais ser tão solidários, pois teremos trabalhado antes para evitar, ou até mesmo minorar os efeitos de eventos como esse que vêm se tornando cada vez mais comuns. A tragédia que o Rio Grande do Sul enfrenta é uma chamada de alerta para toda a sociedade brasileira. É hora de agir com caridade, sim, mas também com responsabilidade e prevenção. Esse processo não se dará por movimento dos políticos em ação, mas pela capacidade de conscientização e, igualmente, de mobilização da sociedade. Somente assim poderemos verdadeiramente honrar o espírito de solidariedade que nos une em tempos de crise, enquanto trabalhamos para um futuro mais seguro e sustentável para todos.