(José Cruz/Agência Brasil) Escrevi inúmeras vezes nesse espaço o quão vis, abjetos e repugnantes são os crimes praticados contra as mulheres dentro do ambiente doméstico. Essas condutas acontecem no subterrâneo da vida das pessoas, eclipsados por declarações de amor e fotos lindas postadas nas redes sociais com a finalidade de encobrir os abusos, especialmente as violências físicas e psicológicas que parte significativa das mulheres sofre cotidianamente. Não considero correto, frise-se, que apenas as mulheres ocupem lugar de fala a respeito desse tema. Ao contrário, penso que os homens têm papel fundamental de defender posições cada vez mais contundentes para inibir esse tipo de crime. Nesta última semana fomos tomados por mais uma fala machista do Presidente Lula. Dessa vez, ao comentar a pesquisa que indica que a violência contra mulheres aumenta em dias de jogos de futebol, Lula disse: “Se o cara é corintiano, tudo bem”. Uma fala absurda, porque banaliza o contexto em que acontecem esses crimes e ridiculariza as vítimas. Infelizmente, no Brasil nós exigimos mais daqueles que tem menos. Justamente as pessoas desfavorecidas pela sociedade são aquelas que sofrem com maior rigor a mão pesada do Estado. Somos o país que conta com a terceira maior população carcerária do mundo, estamos atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Esse dado, por si só, serve de indicativo para várias reflexões, entretanto, o que enxergo com clareza é que buscamos naquele que conta com o menor apoio social, o exercício de condutas exemplares e, caso não aja assim, a punição será rigorosa. Por outro lado, somos complacentes com aqueles que têm uma posição privilegiada e promovemos malabarismos argumentativos para justificar o injustificável. A premissa de que o desenvolvimento de uma sociedade só é possível quando o exemplo vem de cima é crucial para a construção de uma sociedade justa e igualitária. A liderança, seja em cargos políticos, empresariais ou sociais, tem a responsabilidade de agir de maneira exemplar, pois suas ações e palavras têm um impacto profundo e duradouro na cultura e nos valores da sociedade. Quando figuras de autoridade falham em ser modelos positivos, o dano é duplo: não apenas minam a confiança pública, mas também perpetuam comportamentos prejudiciais. A recente declaração do Presidente Lula exemplifica isso de forma clara. Ao minimizar a seriedade da violência contra as mulheres com um comentário insensível e inadequado, ele não apenas desrespeita as vítimas, mas também envia uma mensagem perigosa de que tais comportamentos podem ser trivializados. Devemos abandonar a benevolência em relação às figuras públicas que não cumprem seus deveres morais. A justiça e a responsabilidade devem ser aplicadas de maneira equitativa, independentemente da posição social ou do poder econômico do indivíduo. Apenas quando exigirmos que nossos líderes se comportem com integridade e respeito, poderemos criar um ambiente onde todos os cidadãos se sintam seguros e valorizados. É imperativo que não aceitemos desculpas ou justificativas frágeis para ações inexplicáveis. A mudança deve começar no topo, e cada um de nós tem o dever de cobrar essa mudança. Somente assim, com líderes que realmente lideram pelo exemplo, poderemos construir uma sociedade que prospere em justiça, equidade e respeito mútuo. Presidente Lula, não está tudo bem se for corintiano.