(Imagem ilustrativa/Pexels) Dirigir sempre foi, para mim, um momento de reflexão, mas principalmente de diversão. Com a vida já bastante dura e os compromissos incessantes, busco aliviar a mente ouvindo músicas enquanto estou no trânsito. É o meu momento de desconexão das preocupações cotidianas. Raramente sintonizo nos noticiários, prefiro deixar que as melodias conduzam meus pensamentos para lugares mais leves e despreocupados do que as tensões do dia a dia “empacotadas” como notícia. Recentemente, enquanto ia de um compromisso a outro, eu me peguei ouvindo “Kiss Me”, da banda Sixpence None the Richer. Essa música, lançada em 1997, foi um marco na minha adolescência. Com apenas 16 anos, ela era a trilha sonora perfeita para dedicatórias apaixonadas. Lembro bem como era comum associar a momentos de romance juvenil, inclusive em filmes e séries. Ela era, sem dúvida, a número um para mandar para a namorada na época. E ouvir novamente, tantos anos depois, foi como abrir uma porta para o passado. Recomendo ao leitor, inclusive, que ouça a música enquanto lê este texto. Não se trata exatamente do meu gênero musical favorito – confesso ser bastante eclético –, mas “Kiss Me” tem uma simplicidade e beleza únicas. Versos como “Kiss me, down by the Broken Tree House” e “Lead me out on the moonlit floor” têm uma magia que vai além das palavras. Eles são convites para reviver um tempo mais inocente, onde a música encantava mais pelo que fazia sentir do que pelo impacto visual ou numérico apontado atualmente pelas redes sociais. No entanto, a experiência de revisitar essa música não parou por aí. Decidi compartilhar a memória com meus alunos – a maioria deles sequer havia nascido quando a música foi lançada. Para minha surpresa, quase todos conheciam e, mais ainda, gostavam dela. A descoberta me deixou em uma mistura de sentimentos: a felicidade de saber que algo tão bonito resistiu ao tempo, mas também uma pontada de tristeza por perceber que não há tantas músicas atuais que despertem esse tipo de encantamento. Não quero generalizar nem parecer saudosista, mas tenho notado uma crescente falta de preocupação com o lúdico nas artes, especialmente na música. Letras e melodias que antes tinham o poder de nos transportar para outra dimensão estão cada vez mais escassas. Hoje, o que parece importar é a batida que “bomba” ou a quantidade de “likes” e “views” que uma música consegue ostentar. Esse padrão de consumo rápido da arte muitas vezes deixa um pouco espaço para obras que nos tocam profundamente. Ao ouvir “Kiss Me” novamente, fui lembrado do quanto a música pode ser um refúgio, uma máquina do tempo e um portal para emoções que achávamos ter deixado para trás. Talvez seja por isso que ela ainda ecoa em corações de diferentes gerações. Afinal, algumas músicas, como essa, têm o poder de nos balançar os sentimentos mais bonitos. Por mais “Kiss Me”.