(Imagem ilustrativa/Pixabay) O calendário marca novembro, mas o espírito já está na linha de dezembro. As ruas começam a ganhar o brilho das luzes de Natal, as vitrines se enfeitam com adereços festivos, e o som dos sinos já se mistura ao frenesi dos dias. No entanto, por trás desse cenário que tenta inspirar leveza e comemoração, uma realidade parece prevalecer: estamos exaustos. O sentimento generalizado é de esgotamento, um cansaço que transcende o físico e adentra o emocional e o mental. Nas redes sociais, esse cansaço encontra sua voz. Vejo amigos, clientes, alunos e ex-alunos expressarem o desejo quase unânime de descanso. Compartilham memes e desabafos que revelam, de forma ora irônica, ora melancólica, uma necessidade urgente de pausa. Até mesmo os perfis mais humorados – incluindo um famoso criador de conteúdo jurídico – se rendem à contagem regressiva. “Faltam 14 dias úteis para o recesso forense”, anuncia ele, como se estivesse compartilhando uma mensagem de esperança para uma audiência sedentária por intervalo. Afinal, como não estar cansado? Onze meses já ficaram para trás, cada um trazendo desafios, pressão e uma rotina que não conhece clemência. Considerado natural que, à medida que nos aproximamos do fim do ano, o corpo e a mente peçam um respiro. Todavia, o que me preocupa não é o cansaço em si, mas a sua intensidade e abrangência. Parece que nunca estivemos tão exauridos, tão sobrecarregados. É como se a vida moderna tivesse sido transformada em uma máquina que exige mais do que estamos aptos a oferecer. Essa sensação é reforçada quando analisamos o que se tornou nossa rotina. A jornada de trabalho, antes limitada a oito horas diárias, frequentemente ultrapassa esse limite. O advento do home office, que em um primeiro momento foi saudado como uma solução prática e moderna, revelou-se, para muitos, um desafio ainda maior. Sem fronteiras claras entre o profissional e o pessoal, o “trabalho em casa” se transformou em “trabalho o tempo todo”. Notificações chegam às onze da noite, reuniões são agendadas para horários improváveis, e a sensação de que estamos sempre disponíveis é esmagadora. E se a pressão é grande para todos, para as mulheres ela se agrava ainda mais. Além de enfrentarem as demandas do mercado de trabalho, muitas ainda carregam o peso desproporcional das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos. Mesmo em tempos de discursos de igualdade, a realidade prática demonstra que a divisão de responsabilidades ainda está longe de ser equilibrada. As mulheres enfrentam uma dupla jornada, e essa carga adicional não passa sem consequências. Até mesmo os momentos de lazer, que deveriam funcionar como um respiro, tornaram-se parte do problema. Com os olhos presos às telas de celulares, consumimos um fluxo infinito de conteúdo que, em vez de nos relaxar, acaba nos esgotando ainda mais. As redes sociais, com suas atualizações constantes, provocam uma sensação de urgência e de comparação que pode ser sufocante. O que deveria ser um momento de desconexão se transforma em mais uma fonte de estresse. Diante desse cenário, é inevitável pensar: como chegamos a esse ponto? E mais importante, como sairemos dele? Parece evidente que estamos vivendo uma rotina acima do que seria aceitável. A vida não pode ser um ciclo interminável de demandas que drenam nossas energias sem oferecer tempo para recarregá-las. Nossa energia vital, afinal, não é infinita. Continuar nesse ritmo é como viver em um sistema que consome a si mesmo, deixando pouco ou nada para trás. O recesso que se aproxima é, sem dúvida, uma oportunidade valiosa para descansar. Mas ele não pode ser visto como uma solução em si. Pausar por alguns dias para, logo em seguida, retomar a rotina exaustiva não resolver o problema. É preciso ir além. É necessário repensar nossas prioridades, rever nossas práticas e, sobretudo, encontrar formas de viver que respeitem nossos limites. Talvez isso signifique estabelecer horários mais rígidos para o trabalho, mesmo em home office. Talvez signifique aprender a dizer “não” para demandas excessivas. Para as mulheres, pode significar lutar por uma divisão mais justa das responsabilidades. Para todos nós, é um convite para redescobrir o valor das pausas, dos momentos de desconexão, dos encontros presenciais que não envolvem a mediação de uma tela. O fim do ano, com suas festas e rituais, é um momento de celebração, mas também de reflexão. Que esses dias sirvam para recarregar nossas energias, mas também para pensar sobre o que queremos para o futuro. Que a “temporada 2025” de nossas vidas não seja apenas mais um ano em que sobreviveremos ao calendário. Que seja um ano em que possamos viver com mais equilíbrio, mais leveza e mais propósito.