(Pixabay) Adalto é um sujeito interessante. Um artista nato. Aos 10 anos, escreveu o primeiro poema. Era algo sobre o mar. Ele não lembra o conteúdo exato, pois perdera o caderno quando deixou a casa dos pais, há mais de 50 anos. Era o começo de uma longa trajetória de desperdícios artísticos. A poesia ficava para trás. Na juventude, Adalto aprendeu música. Tocava piano, violão, flauta doce; chegou a aprender até trompete. Aos 15 anos, era fascinado por Chet Baker. Ele detalha que sabia tocar até aquele solo lindíssimo de trompete em But Not For Me. Além disso, Adalto compunha. Sua obra, cerca de vinte e poucas composições, ficou guardada no fundo do armário por décadas. Ele brinca que as músicas deviam ser boas; ao menos, as traças adoraram. Em razão das urgências da vida adulta, teve que largar tudo e arrumar um emprego. Despediu-se também da música. Dedicado, estudava contabilidade, trabalhava em uma sapataria, e às terças-feiras no período noturno fazia aulas de pintura. Aprendeu tudo o que pôde sobre história da arte. A professora era uma senhora que lhe contava sobre a influência da vida dos artistas na linguagem. Adalto tinha um traço característico: ele gostava da ideia de movimento. As pinceladas rápidas, a representação de luz natural e as paisagens com contornos sutilmente imprecisos, reforçavam uma estética impressionista. Pelo menos, é o que Adalto conta, já que não tinha nenhum registro das telas. Ele perdeu tudo em uma enchente que destruiu a pequena edícula onde amontoava as obras, no fundo de casa. A chuva dissolveu a pintura de sua vida. Adalto seguiu firme nos estudos, passou em concurso e tocou a vida. Anos depois, casado e à espera do primeiro filho, levou a esposa para assistir a uma peça de teatro. Ele conta que ficou inebriado com o espetáculo. Na época, empolgado com aquela experiência, começou a escrever alguns roteiros para peças, no intervalo do almoço, na repartição. Ele chegou a mostrar para alguns colegas, que acharam as histórias ótimas. Planejou, então, enviar cópias para diretores na capital. Porém, certo dia, esqueceu os originais na mesinha do café, no trabalho, e a papelada foi toda para o lixo. Seria uma bela carreira como dramaturgo. Apesar de tudo, não se arrepende. Ele se acostumou com a estabilidade da repartição. A arte tem muitas formas, diz ele. Hoje, aposentado, Adalto caminha na praia pela manhã e, ao voltar para casa, passa na padaria para contar histórias. Para ele, a função do artista é provocar emoções, fazer rir ou chorar. Na fila do pão, a atendente pergunta do que ele precisa. E ele responde: “Bom dia, três médias e um sorriso, por favor”. Tímida, a moça não consegue controlar o riso. Disfarça indo pegar o pão. Adalto pisca para a plateia que o ouvia. É mesmo um artista nato. Boa semana!