(Reprodução/Instagram Rock in Rio) Na estrada, uma angústia me toma enquanto escolho o setlist da viagem no aplicativo de música. Noto um estranhamento em relação às minhas escolhas. Isso vem acontecendo há algum tempo. No entanto, o ápice desse conflito foi provocado por reflexões acerca do problemático Rock in Rio de 2024. Para além de qualquer crítica, e embora o festival tenha tanto pontos positivos quanto negativos, esta edição representou uma metáfora para um assunto que evito há tempos. Temos um elefante na sala: afinal, o rock morreu? Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Olho para o celular e verifico as minhas últimas buscas, os setlists mais tocados, e as sugestões algorítmicas que o aplicativo me oferece. Noto que não há nenhuma música com menos de 30 anos por aqui. Sim, 30 anos. Me forço a fazer uma análise da situação. Afinal, o que aconteceu com a indústria fonográfica, ou com o mundo, que foi capaz de fazer com que o rock virasse uma peça de colecionador? E outra coisa: por qual motivo sua relevância foi diluída por outros estilos musicais? Tenho procurado, então, algumas hipóteses. Podemos exemplificar essa estranha sensação no festival, ao observar que uma noite que no passado já teve como headlines bandas como Iron Maiden e Metallica, tenha tido nesta edição Avenged Sevenfold. Com todo o respeito aos fãs, mas os ingressos não ficaram mais baratos por causa dessa desproporção. O problema é que ninguém se importa mais, afinal, os festivais, na prática, acabaram se transformando em cenário para selfies publicados nas redes sociais – a música se tornou secundária. O rock parece ter passado por um esvaziamento de sentido que fez o estilo se tornar uma fantasia temporária – tal qual um traje guardado para determinadas ocasiões – e não mais uma identidade. Isso é muito nítido quando observamos bandas do nível de Deep Purple e Journey fadadas a atuar como atrações exóticas, que pouco empolgam o público. Claro que a convergência entre dezenas de estilos no festival não é, necessariamente, uma novidade. Assisti alguns shows de trap, MPB, pop, samba, sertanejo e muito mais. No entanto, a discussão é outra. Minha questão tem sido entender quando foi que o rock deixou de ser um estilo relevante. A ideia é contextualizar em que momento o sonho acabou. Uma visão mais concreta e mercadológica tem sido apontada por Gene Simmons (baixista e vocalista do Kiss) em algumas entrevistas, nos últimos anos. Para ele, não existem mais bandas influentes. O rockstar pontua que isso acontece, em parte, pelo fato de que os fãs não estão dispostos a gastar dinheiro com bandas de rock, devido à facilidade de compartilhamento de músicas via streaming. Uma realidade que artistas pop como Taylor Swift ou mesmo grupos de K-pop (música pop coreana) não vivenciam, já que seus fãs são propensos a gastar qualquer valor por álbuns e itens licenciados. No livro O Dia em que o Rock Morreu, o jornalista André Forastieri calcula que o rock foi perdendo progressivamente sua essência contestadora, em parte pela massificação, superficialização, o desinteresse da mídia e, ao mesmo tempo, pelo fortalecimento de outros gêneros. O rock teria seu ponto final simbolicamente representado em 1994 pela morte de Kurt Cobain – ícone do grunge, último movimento autêntico do estilo. O autor Paul Friedlander, em seu livro Rock’n’Roll: Uma História Social, pontua o que chama de ciclo de vida do rock. Primeiro, há um processo de ‘formulação’: de tempos em tempos, artistas emergentes procuravam linguagens e estéticas. Depois, um ‘amadurecimento’, quando as bandas aperfeiçoam e inovam seu estilo. Por último, um estágio de ‘estabilização’, em que os artistas estagnam a produção, entrando em uma fase caricatural, que é seguida pela decadência. Ao que parece, há quase 30 anos não surge nada novo ou esteticamente original para dar relevância ao estilo. Os subgêneros do rock, provenientes dos anos 2000, representam apenas releituras e hibridismos fadados à efêmera comercialização: não são feitos para durar, pois não há essência. A geração de jovens que consome música por plataformas digitais, hoje, já não se identifica com o rock, muito pelo fato de que não houve uma atualização que pudesse trazer protagonismo dentro do contexto hiperconectado da nova dinâmica dos meios. O rock virou um museu de grandes novidades, como diz a canção. Claro que existem artistas de qualidade no cenário underground; mas o alcance é de nicho, nunca chegam ao mainstream. Sigo pela estrada, com o velho setlist. Meus filhos, no banco de trás, me perguntam por qual motivo insisto nessas músicas antigas. Na sequência, os Rolling Stones respondem por mim: “I know it's only rock ‘n’ roll but I like it...”. Eu sei, é apenas rock’n’roll, mas eu gosto. Boa semana!