A imagem de Jonne Roriz, fotógrafo do Comitê Olímpico Brasileiro, mostra um pequeno peixe saltando e invadindo o enquadramento da atleta (Jonne Roriz/COB) Um surfista encara uma onda gigantesca. Ele desliza por dentro do tubo por instantes que parecem infinitos, e quando sai inteiro e de pé sobre a água, se lança ao oceano. Ele se solta da prancha, que permanece amarrada na sua perna, e flutuando no ar, aponta o número um com o dedo. O atleta é Gabriel Medina; e a foto foi clicada pelo fotógrafo da Agência France-Presse Jérôme Brouillet, na disputa do surfe na Olímpiada, na última semana. Um recorte de milésimos de segundos que parece mostrar e simbolizar muito mais do que o vídeo da cena, que circulou por entre centenas de sites de notícias. As matérias, em sua maioria, utilizavam o vídeo para provar que a fotografia era verdadeira; atestando que não havia manipulação e, de fato, que a cena aconteceu. Notemos esta curiosa urgência na percepção pragmática da imagem enquanto representação da realidade. Por mais fantástica que seja a fotografia, ainda assim, o público precisava de uma comprovação; algo concreto que fosse capaz de convencer o espectador acerca da autenticidade do registro. O fato é que o vídeo não é tão interessante quanto a fotografia. Medina encara a onda, sai no tubo e salta para fora da cena, largando a prancha e fazendo o gesto em uma fração de segundos, até cair na água. Um breve momento. No entanto, a graça da fotografia se dá, justamente, pelo fato de transformar um pequeno fragmento desta sequência de ações, em um imaginário épico, único, olímpico. A imagem no contemporâneo reflete a nossa relação com o mundo, mas em paralelo, espelha um incômodo acerca de sua possibilidade de tradução. Algumas correntes linguísticas contextualizam que, em partes, toda tradução é uma traição. De forma que, se adaptarmos esta lógica para a imagem, verificaremos que não é tão diferente assim da palavra. Ao representar, o fotógrafo recorta, enquadra, escolhe a lente e registra de acordo com suas capacidades técnicas e estéticas, o que pensa ser a melhor forma possível de representar a cena. O espectador tem o papel de aceitar - ou não - como realidade. O fotógrafo, assim como o tradutor, rompe com a fidelidade ingênua do fato, ou do texto, a fim de contextualizar uma versão com todas as suas nuances mais importantes e compreensíveis para cada forma de linguagem. Neste sentido, uma nova realidade dos meios nos obriga a observar a relação problemática entre público, imagem e recepção. Há uma relação intrincada acerca do processo de aceleração das imagens neste contexto hipermoderno. De um lado, somos atravessados por infinitas cenas e recortes - reais ou não - do mundo; estes registros passam no fluxo do cotidiano sem nos chamar tanta atenção. Nos atentamos mais ao ritmo das imagens, do que, necessariamente, ao sentido. Por outro lado, existem cenas que quebram a lógica sequencial de fluxo, e nos obrigam a observar seus detalhes. Nos forçam a considerar seu efeito de real. Há uma camada de realismo fantástico nas imagens esportivas. Algo que o fotógrafo, que se arrisca a aprisionar estas tramas no retângulo perpétuo da câmera, costuma considerar. Alguns chamariam de sorte, ou de extrema competência; na verdade, pode ser mesmo um alinhamento entre estas duas opções. Me parece mais uma recompensa fugidia do destino, aos fotógrafos que se colocam diante da imprevisibilidade do real. Para observar esta questão, destaco outras cenas que irromperam o fluxo das redes, de forma a reforçar o caráter mágico que o esporte provoca nas imagens estáticas. Lembro o caso da fotografia da nadadora brasileira Ana Marcela Cunha, campeã da maratona aquática na Olímpiada de Tóquio, em 2021. A imagem de Jonne Roriz, fotógrafo do Comitê Olímpico Brasileiro, mostra um pequeno peixe saltando e invadindo o enquadramento da atleta. Uma imagem inusitada. Em outro recorte olímpico, recordo a imagem feita pelo fotógrafo Cameron Spencer, em que mostra Usain Bolt sorrindo enquanto abre larga vantagem sobre os oponentes, na Olímpiada do Rio, em 2016. O registro fotográfico, feito em baixa velocidade e acompanhando o movimento - algo não muito convencional no esporte -, seria descartado se o mítico atleta não olhasse para o lado e sorrisse. O Punctum na fotografia, conceituado pelo teórico Roland Barthes, se transforma em meio à dinâmica das cenas. Este elemento rompe com o processo de aproximação entre real e imaginário. Esta é a mágica da fotografia. Uma fratura entre o possível e o impossível, mesmo sendo tudo parte da realidade. Algo que, paradoxalmente, nos faz acreditar e duvidar da fotografia. É nesta cisão que as imagens mais interessantes podem acontecer. Retratos, registros, fragmentos, recortes de algo que existiu. Penso que, para além de qualquer aspecto técnico ou teórico, na fotografia, sempre haverá algo de fantástico. Boa semana!