[[legacy_image_278280]] O problema do Santos parece bem mais complexo do que se apresenta. Tudo indica que a atual situação não se limita à falta de qualidade técnica do elenco, que a cada rodada coloca o time em xeque, como num jogo de xadrez. Via de regra, é uma ameaça clara ao “Rei” e por extensão uma grande possibilidade de derrota final. Depois da demissão de mais um técnico, a contratação de outro às pressas e a decepção contra o Blooming na Vila Belmiro, na triste despedida do time da Copa Sul-Americana, o “fato novo” são a indisciplina e o afastamento de Soteldo, que sequer jogará hoje contra o Cuiabá. O motivo, segundo consta, foi a recusa do jogador em participar de uma rápida atividade no vestiário após a partida contra o Blooming, ainda na quinta-feira. Normalmente, os atletas que não atuaram durante toda a partida, caso de Soteldo e vários outros titulares, realizam exercícios mesmo após o jogo e treinam no dia seguinte. Soteldo, porém, se recusou na quinta e na sexta, dia de seu aniversário, ao saber que não participaria da atividade tática, simplesmente foi embora. No ano passado, quando ainda estava no Tigres, do México, cometeu uma indisciplina semelhante, demonstrando total falta de comprometimento e profissionalismo. Nesse período recente, não foi o primeiro caso que terminou em afastamento do elenco. Os laterais Nathan e Lucas Pires também receberam punição semelhante e devem ser negociados em breve. Junte-se a isso o “problema Bauermann”, envolvido em uma denúncia grave de apostas em jogos do próprio time. Ao contrário de sua primeira passagem pelo Santos, Soteldo jamais justificou seu retorno. Pouco ajudou nesse período, principalmente em razão de duas lesões mais sérias. Com certeza, o departamento de estatísticas do clube tem todos os números para comprovar o baixo rendimento e indicar que a melhor opção seria a rápida devolução ao time mexicano. Surpreendentemente, porém, apesar da absoluta falta de recursos, o Santos decidiu na semana passada exercer o direito de compra em definitivo dos direitos econômicos do atleta por alguns milhões de dólares em “suaves prestações”. A primeira impressão é de que o clube, inicialmente, não analisou o chamado custo-benefício, focando apenas no potencial geral jogador. O ideal seria o cancelamento da transação de compra final, hipótese que o clube passou a considerar. Segundo consta, o novo contrato com o jogador ainda não foi assinado, já que o atual só termina amanhã. Por todo o contexto, a melhor opção é devolver o atleta, obviamente se houver amparo legal. O Santos não pode e não tem condições de correr o risco de uma nova ação internacional, cujos prejuízos vão além do aspecto financeiro. Se não der para anular, que pelo menos seja considerada de pronto uma rápida venda, para proteger o elenco e deixar claro ao grupo que existem regras e que a disciplina é inegociável. Nessa linha, há que se reconhecer, o Santos tem atuado com rigor, exigindo que a relação seja profissional e que o clube seja a prioridade. Da parte da diretoria impõe-se também maior consciência em relação ao difícil momento que o time vive no Campeonato Brasileiro. Não cabem manifestações retóricas sem nenhuma base, do tipo que o Santos é “incaível” ou que jamais irá para a Série B. Não se trata de um jogo de pôquer, onde existe a possibilidade de “pagar para ver”. Para fazer isso, tem que “ter jogo” na mão, na maior parte das vezes o blefe custa caro e vai muito além da simples derrota naquele momento. Blefe é simulação, fingimento ou tentativa de iludir o adversário. Ou mesmo de se enganar, apostando que é possível vencer apenas intimidando o opositor, sem “nada nas mãos”. Hoje, em Mato Grosso, o Santos jogará mais uma decisão, contra o Cuiabá, outro desesperado em termos de classificação. Com apenas 13 pontos, se perder o Santos poderá ser superado por até quatro times, entrando definitivamente na zona de rebaixamento. É óbvio que, se ganhar, dará um passo importante na tabela e interromperá uma longa série de 11 jogos sem vitória. O histórico, porém, não é animador. Pelo contrário, é desesperador. Subestimar é um erro grave.