Em uma dessas tardes bem bonitas de outono, o sol banhava com luz dourada os automóveis que transportavam motoristas e passageiros até seus destinos. Asfalto. Velocímetros. Bancos estofados. Tapetes de borracha. Pedais. Diferentes velocidades. Pequenos mundos dentro de chapas de aço em deslocamento. Luz vermelha. Duílio brecou. Ponto morto. Olhos no espelhinho do teto. Marcas de expressão a surgir no seu rosto de quase 50 anos. Instintivamente, virou o rosto para o lado do banco do passageiro. Emparelhado com seu carro, na outra faixa de rolamento, um veículo familiar. Vinho metálico. A motorista era Berenice, sua ex-esposa. Duílio não esperava por essa. Desde que cada um seguiu a sua vida, após um casamento de 16 anos e um divórcio amigável, os caminhos não mais se cruzaram. Dois anos haviam se passado. Dois anos que se resumem agora a uma fração de segundo. Coração batendo num descompasso incrível. Ele temia por esse momento. “Está voltando do trabalho?” “Você continua bela. Parece até mais jovem. Eu estou envelhecendo. Meus cabelos estão ficando brancos”. “Eu não sei onde erramos. Mas sempre me lembro de você. Não queria que nosso casamento tivesse acabado. Apenas respeitei a sua decisão. Vou seguindo a vida”. “Está bem. Eu sei que deixei os problemas do trabalho me transformarem em um cara chato e reclamão. Fui fraco nesse aspecto. Acho que isso foi nos afastando. Mas eu nunca desisti de nós. Eu pensava que melhorar era uma questão de tempo”. “Olha, não deixe de olhar e trocar o óleo do carro. Você sempre esquece. Vai acabar fundindo o motor e depois o prejuízo vai ser maior. Tem um adesivo aí no vidro”. Luz verde. Primeira marcha. Berenice arrancou sem se dar conta de quem estava ao seu lado. Segunda marcha. Duílio interrompeu o seu diálogo imaginário. No pensamento, frases ecoando no silêncio que nunca foi quebrado. Terceira marcha. O automóvel cor de vinho foi embora. Curva à direita. Só deu para ver um pedacinho da lanterna. Seguiu outro rumo. Deixou um rastro invisível de recordações naquela triste e bela tarde de outono.