(Pixabay) É incrível como algumas memórias permanecem armazenadas por tanto tempo no HD que nos foi dado por Deus. Das lembranças que guardo dos primeiros anos de vida, muitas remetem a personagens misteriosos, pessoas reais que observava do meu pequeno e inexpressivo mundo juvenil e que desapareceram no galopar dos anos. Uma dessas figuras eu via passar pela minha rua de vez em quando. Era um homem de cabelos claros que andava apressado e falava sozinho. Tinha os bolsos da calça cheios de papéis amassados. Parava, gesticulava, pegava uma bolinha de papel, lia, falava alguma coisa e seguia a passos rápidos até sumir na esquina. Despertava-me pena, mas também um pouco de medo. Que tipo de transtorno seria aquele? O que teria acontecido para que ficasse daquele jeito, obcecado por papéis e anotações a ponto de encher os bolsos da calça? Outro personagem peculiar que passava pelo bairro era um enigmático homem asiático. Eu desconfiava que era chinês, pois parecia ator de filme de kung fu. Magro, alto e já idoso, tinha uma bicicleta com um guarda-chuva acoplado. Pedalava de coluna ereta, com um chapéu preto e um olhar sinistro. Tudo naquele sujeito era mistério, pelo menos na visão de um garoto bobo. Por falar em chapéu, lembro-me de um velhinho que usava uma boina cinza quadriculada. Tinha um queixo avantajado e calçava botas de couro pretas sempre muito bem engraxadas. Na minha cabeça, imaginava eu que aquele senhor era maquinista de trem. Tinha toda a pinta de trabalhar em alguma estação ferroviária, de ser um homem que andava na linha. “Lá vem o maquinista de trem. Será que carrega gente ou cavalo?”, e ria com as minhas próprias abobrinhas. Em 1986, dois dos assuntos mais comentados eram a passagem do Cometa Halley e o Plano Cruzado. Houve desabastecimento de carne e para conseguir um pouco de acém era preciso madrugar e ir para a fila do açougue. Lá em casa, eu me ofereci a fazer isso. Acordando às 4 horas, tentaria ver o cometa – diziam que de madrugada era mais fácil –, e ainda ajudava a garantir a carne moída do almoço. Era uma sensação de aventura e fascínio estar na rua às 4h30. Luzes das casas apagadas, latidos longínquos que vinham de outras vizinhanças, um galo sonolento... Não vi o cometa passar, mas pude apreciar madrugadas estreladas e descobrir mais personagens enigmáticos, como uma senhora baixa e obesa que passava pelo bairro antes das 5 horas. Carregava, na cabeça, um pano branco volumoso que parecia ser uma trouxa de roupas. Tão cedo, o sol ainda nem despontara, para onde iria? Aquilo me intrigava. Com o passar do tempo, o abastecimento voltou ao normal e não foi mais necessário madrugar para ir ao açougue pegar uma senha. Ainda assim, durante um tempo, eu acordava no meio da noite e abria a janela do quarto para ver passar, do outro lado da rua, aquela mulher misteriosa que equilibrava montes de tecidos sobre a cabeça. Orgulhoso de mim mesmo por descobrir um pouco desse mundo, pensava: “Eu sou o rei da madrugada”. Ria dos parafusos que faltavam em minha cabeça, fechava a janela e voltava a dormir...