(Imagem ilustrativa/Gerada por IA) Era uma vez uma casa cheia de objetos. Todos tinham uma função e trabalhavam em harmonia. O fogão preparava o alimento; a vassoura varria o chão; o sofá oferecia conforto no fim do dia; o despertador fazia escândalo e a xícara recebia o café quentinho nas primeiras horas da manhã. Cada objeto respeitava o espaço alheio e todo mundo vivia em paz. Um dia, o dono da casa, entediado e sedento por acompanhar os avanços tecnológicos, comprou um robô doméstico. Orgulhoso e feliz, tirou o pequeno androide da caixa e programou as diversas tarefas que ele deveria executar ao longo do dia. Com seus bracinhos mecânicos, o robô acordava o seu dono às 6 da manhã, preparava o café, tirava o pó dos móveis e varria a casa. Ainda cuidava do almoço e deixava a casa brilhando e cheirosa. À noite, o prestativo robô também sugeria filmes, séries ou músicas para relaxamento. Não demorou muito e o velho despertador, que antes se orgulhava de ter a responsabilidade de não deixar ninguém perder a hora, começou a se sentir esquecido e inútil. Mudo, entrou em um estado profundo de tristeza e parou de mover os ponteiros. A xícara, que gostava de sentir o calor do cafezinho matinal invadir o seu interior, percebeu que a bebida não era mais colocada com prazer e cuidado. Era despejada de uma maneira automática e desprovida de qualquer sentimento. A amargura tomou conta do pequeno utensílio, que ficou doente e quebrou ao cair da pia. A vassoura, testemunha de tudo o que estava acontecendo, estava muito revoltada. Sempre fora muito bem-tratada pelo dono da casa. Mesmo nos dias de limpeza mais pesada, era conduzida com respeito. Agora, nas mãos daquele robô sem coração, sofria com os movimentos bruscos. Aproveitou um momento de descuido e fugiu de casa, aos prantos. Até o chuveiro, que já conhecia a temperatura ideal para o banho, passou a ser controlado pelo robô. Não aceitou tamanha interferência e queimou em uma fria manhã. Desprezados, o aparelho de rádio ficou mudo e a televisão perdeu a cor. O dono da casa percebeu que algo muito sério estava acontecendo e começou se cansar do robô. Nos dias de folga, ainda que pudesse dormir até mais tarde, era insistentemente chamado pelo androide prateado. O despertador jamais cometera esse tipo de gafe. Depois que a xícara se quebrou, passou a tomar o seu café em um simples copo americano. Na hora do banho passava muita raiva, pois o novo chuveiro esfriava no inverno e esquentava no verão. Sentiu saudade das músicas que gostava de ouvir e dos programas de televisão preferidos. Decidiu se livrar do robô. Faria aquilo no mesmo dia, quando voltasse do trabalho. Mas não houve tempo. Uma ligação emergencial de um vizinho, no fim da manhã, trouxe a notícia aterradora: sua casa estava em chamas. Quando chegou, não havia mais nada a fazer. Tudo estava queimado e destruído. Enquanto colocava as mãos na cabeça, desesperado, o dono da casa consumida pelo fogo foi abordado por um bombeiro. - Aquele foi o único objeto que estranhamente não queimou - disse, apontando para o robô, que a cinco metros de distância, sustentava um olhar frio e sinistro na direção do pobre humano que um dia o colocara dentro do lar.