(FreePik) Um dia desses eu resolvi comprar um despertador. Não desejava mais ser acordado pelo alarme do celular. Todas as vezes que eu tocava na tela para desativar o som, pegava o aparelho para ler mensagens, ver notícias e coisas do tipo. Mal tinha aberto os olhos e uma enxurrada de informações e de compromissos invadia minha cabeça às 5h30. A culpa não era do celular. Ele estava lá para isso, apenas cumprindo a sua função. O culpado era eu, que não conseguia simplesmente desativar o alarme e ficar quieto por uns cinco minutos. Fazer algo bom a mim mesmo e despertar com um pouco mais de tranquilidade. Fui à loja. Que sensação curiosa! É uma atitude vintage comprar um despertador. Eles estão ali, na vitrine, como se fossem verdadeiras máquinas do tempo, heróis da resistência, peixes fora d’água neste mundão tecnológico. Redondos, quadrados, de plástico ou de metal. Muitas cores para escolher. Analógicos ou digitais. Optei por um despertador bem simples e funcional. Essa era a proposta. Redondinho, mostrador das horas na cor branca com números pretos. Mais fácil para visualizar. A cor externa foi o detalhe de que mais gostei: um tom de caramelo que lembra muito aqueles eletrodomésticos dos anos 70. Alimentado por uma pilha, não custou mais do que R\$ 40. Um barato em todos os sentidos! Levei para casa e coloquei ao lado da minha cama. Sorri ao notar que o despertador não é silencioso. Conforme o ponteiro dos segundos avança, um tic-tac nostálgico chega aos meus ouvidos. Para muita gente pode ser irritante, mas com o tempo dá para se acostumar e o som fica totalmente integrado ao ambiente. Confesso que nas primeiras duas ou três noites não confiei muito no reloginho. Mantive o alarme do celular ativado caso o despertador parasse durante a madrugada. Mas o danado funciona que é uma beleza e consegui me livrar do smartphone na hora de acordar. Por precaução, até programei uma troca antecipada da pilha para que ela não acabe em algum dia útil e me deixe dormir mais do que eu posso. Curioso é que, com o passar dos dias, criei uma espécie de conexão com aquele despertador. Nas noites que antecedem os dias de trabalho, aciono o alarme para a manhã seguinte e o deixo ao alcance de minha mão. Se no outro dia não existe a obrigação de acordar tão cedo, também dou uma folga ao despertador e tiro dele a função de me retirar de algum sonho para me trazer à realidade. Uma noite, enquanto tentava dormir, fiquei olhando para os números arábicos do mostrador das horas iluminado pelo abajur. Prestei atenção em cada um deles, do 1 ao 12. Um time de futebol mais um goleiro reserva. “Que bobagem”, pensei. Mas continuei com as divagações sem sentido: “esteticamente, o número 5 parece ser o mais bonito, mas o 7 tem magnetismo e uma energia diferente. E o 2? Bem, talvez o 2 exista para lembrar que não nascemos para viver sozinhos”. Mas ali, no silêncio da noite, eu era apenas o 1. Apenas mais “1”. É hora de dormir. É hora de acordar.