(Imagem ilustrativa/Unsplash) Na agência de publicidade onde Felisberto trabalhava, as notícias se espalhavam na velocidade da luz. Tudo chegava ao ouvido de todos à boca pequena. Não havia telefones celulares, aplicativos de mensagens e internet. Estamos falando do fim dos anos 70. Para ser mais preciso, 1979. E a chegada de um novo diretor caiu como uma bomba no escritório. Agitou ainda mais aquele quente mês de dezembro. Todo mundo só falava disso. O novo ‘big boss’, vindo do Rio de Janeiro, tinha fama de ser um trator. Por onde passava, cabeças rolavam sem a menor cerimônia. E é claro que os boatos de corte e demissões viraram o assunto recorrente no ambiente de trabalho. Felisberto, um redator em início de carreira, estava preocupado. Penou muito para conseguir aquela oportunidade. A informação da tal lista de cortes, compartilhada nos almoços e em diálogos quase subversivos que surgiam no elevador ou em cantos de corredores, lhe roubava a tranquilidade. O novo chefe foi apresentado em uma manhã de segunda-feira, sob olhares de curiosidade, desconfiança e preocupação. Vestia um terno azul marinho com ombreiras e as já quase fora de moda calças boca-de-sino. Olhos pequenos, bigode vasto. Poucos sorrisos, poucas palavras. Nos primeiros dias, o novo diretor quase não saía de sua sala. Discretamente, do lado de fora, pelo vidro, era possível ver o que fazia: analisava papéis. Muitos papéis. E escrevia também. Sempre que anotava algo, logo em seguida dava um telefonema. Para quem tanto ligava? Não demorou muito para a turma do escritório entender que o chefe bigodudo preparava a temida lista de demissões. Incluía nomes. Excluía alguns e, talvez, consultava alguém que conhecia a equipe há mais tempo para definir o destino de cada um. Uma semana se passou e nada aconteceu. Até que chegou o dia da festa de confraternização de fim de ano. Seria em uma discoteca badalada de São Paulo. A Disco Music estava no auge. No fim daquela tarde, Felisberto desceu no elevador com Virgínia, a secretária do novo diretor, e ouviu, pasmo: “não te falei nada, mas vi o Senhor X colocar a lista de demissões no bolso do paletó”. O chefão iria para a discoteca. E o mistério que deixava todos malucos estava em um bolso de sua roupa. A festa estava legal. Som vibrante, muita dança. Muita gente encarnando John Travolta balançando o corpo nervosamente na pista. Bee Gees, KC and Sunshine Band, As Frenéticas...A noite fervia. Em um canto da discoteca, Felisberto e seus amigos observavam o big boss, que havia começado a beber um pouco além do normal. Um plano havia sido arquitetado. No ápice da loucura, ao som de Stayin’ Alive, fizeram um trenzinho e puxaram o diretor para dançar. E ele foi. Gravata fora do paletó, jogada sobre um dos ombros. O falsete de Barry Gibb explodia o ambiente. Gelo seco. Luzes coloridas. Até que um pedaço de papel dobrado caiu do bolso do chefão. Felisberto praticamente se deitou na pista de dança para apanhar a tão cobiçada lista. Chamou alguns colegas e foram para perto do banheiro. Mas quem tinha coragem de abrir o papel cuidadosamente dobrado? E se todos ali vissem os seus nomes? Saberiam que não teriam mais emprego. A festa acabaria para eles, certamente. Seria uma tristeza generalizada. Mas o medo só não era maior que a ansiedade. E assim decidiram ver os nomes que estavam na lista. Com as mãos trêmulas, Felisberto abriu vagarosamente o pequeno pedaço de papel. “Macarrão, molho de tomate, crush, lata de goiabada, chocolate em pó, milho para pipoca, meio quilo de feijão preto, meio quilo de arroz, óleo de soja, um quilo de sal, papel higiênico e sabonete”. Era uma lista de supermercado! Que decepção! A turma da agência não podia acreditar. Alguns riram. Outros esbravejaram. Alheio a tudo, embalado pela Disco Music, o diretor continuou dançando noite adentro, sem imaginar que teria dificuldades na hora de comprar os produtos básicos que a sua esposa havia lhe passado por telefone.