(Pixabay) Madrugada. Uma brisa agradável acariciava as copas das árvores. O jardim da praia descansava à espera do sol. O quebrar das ondas soava como música para alma a desafiar o silêncio noturno, espalhando sua espuma branca na areia prateada. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Toninho desafiava a lógica dos dias úteis e caminhava neste cenário bucólico da cidade. Enquanto a maioria dormia para enfrentar mais um dia de trabalho, o rapaz andava sem rumo pela praia. Um corpo livre com a cabeça refém dos pensamentos. Quem sabe, ao ter este contato com a natureza, não encontraria um pouco de serenidade? Resolveu sentir a areia gelada nos pés e passou a caminhar na direção do mar. Enquanto avançava em seu lento caminhar, avistou uma silhueta que parecia contemplar o oceano. Um borrão vermelho no meio da noite. Uma visão improvável e mística que nenhum medo lhe causou. Pelo contrário. Tomado por estranha força, aproximou-se daquela figura misteriosa. Surpreso, viu que era uma mulher em trajes de cigana cor de fogo. Os cabelos negros brilhantes que desciam pelos ombros e pelas costas balançavam graciosamente com a brisa marítima. Com respeito e um inexplicável sentimento de veneração, Toninho chegou ainda mais perto. Lentamente, a cigana virou o rosto em sua direção. O rapaz cambaleou. Nunca vira em sua vida mulher tão bela. Seus olhos negros transmitiam sabedoria, bondade e amor. Mais do que isso. Um simples olhar daquela mulher parecia desvendar, em sua alma, todos os segredos e angústias que o pobre homem carregava na vida. Perdas sentimentais, problemas financeiros, culpas... Enquanto olhava fixamente em seus olhos, a cigana pediu a Toninho que lhe estendesse a mão. Talvez naquelas linhas tortuosas ela pudesse decifrar a razão de seus desenganos, de suas ilusões, alegrias e fracassos. Mas não ouviu da misteriosa mulher uma palavra sequer. As mensagens chegavam junto com o soprar do vento. Frases que só conseguia ouvir com a alma, palavras que chegavam diretamente ao seu coração. Reflexões, lembranças e conselhos. Sua vida, como um filme, passou pela tela mental. Entendeu a origem de velhos problemas. Escolhas erradas. Algumas cometidas por egoísmo. Outras, por imprudência. A bondosa cigana, em um delicado gesto, entregou a Toninho uma rosa vermelha que adornava o seu vestido. Disse, de pensamento para pensamento, que aquela rosa seria a prova de que aquela experiência havia sido real. E que, por merecimento, o encontro havia sido permitido pelas forças que regem o universo. Extasiado, Toninho sentiu um sono incontrolável. Acordou somente aos primeiros raios de sol, ali mesmo, na praia. Sentia pelo corpo um calor reconfortante. No coração, uma alegria e uma paz que há muito tempo não era capaz de experimentar. Instintivamente, buscou com os olhos a presença da cigana da madrugada. Não a encontrou. Apenas a rosa vermelha ofertada por ela estava ali, em suas mãos, a espalhar um inesquecível perfume que parecia vir de algum lugar muito distante. Feliz e agradecido, levantou-se e foi até o mar. Finalmente, fez as pazes com a esperança e celebrou a vida, convicto de que uma nova etapa havia começado após o encontro com a misteriosa cigana dos cabelos negros.