(Bob Paulino/Globo/Divulgação) Quantas vezes o leitor não ouviu a respeito do funk das favelas coisas como: “isso não é música”, “só falam palavrão”, “é coisa de gente que não teve educação” e, ainda, “é imitação de americanos”. Pois foi instituído na última semana, por meio de um projeto de lei aprovado pelo Congresso, o Dia Nacional do Funk. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A efeméride, e isto tem uma forte razão de ser, será comemorada no dia 12 de julho. Nesta mesma data, em 1970, os lendários DJs – que na época eram chamados de discotecários – Ademir Lemos (1946 – 1998) e Newton Alvarenga Duarte, o Big Boy (1943 – 1977), fizeram na recém-inaugurada casa de shows Canecão, o Baile da Pesada, considerado o primeiro baile funk da história. Era o tempo dos precursores Toni Tornado, Tim Maia e a lendária banda Black Rio, que leva o nome do primeiro grande movimento de massas ligado ao gênero. Um tempo em que jovens das periferias brasileiras se identificavam e emulavam o cantor, dançarino e multi-instrumentista soul americano James Brown. Há neste instante o despertar das comunidades negras e periféricas, que passam a adotar seus pares como modelos e não mais artistas brancos. O funk riscou desde então seu poderoso fogo em um rastilho de pólvora que só fez se espalhar e explodir país afora. São Paulo rapidamente adotou o estilo e criou o Chic Show, no clube da Sociedade Esportiva Palmeiras, no Bairro Perdizes. Jovens negros das periferias da Capital paulista passaram a dançar ao som de Earth, Wind & Fire, Parliament Funkadelic, Aretha Franklyn entre outros, sempre com seus cabelos e roupas estilo black. Os bailes blacks foram, então, se transformando e adotando os estilos e gêneros que surgiam. Entre eles, o mais fundamental e seminal de todos, o rap, o ritmo e a poesia da cultura hip hop, que democratizava a produção musical e a disseminava pelas ruas. A partir de bases rítmicas construídas pelos precursores das décadas anteriores, a garotada passou a improvisar versos que descrevem sem papas na língua seu dia a dia. O funk tal e qual se conhece hoje é um dos vários derivados da cultura do rap e do hip hop. A partir de uma base, processada com cada vez mais maestria pelos conhecidos e admirados “beat makers” (fazedores de ritmo em tradução livre), os MCs improvisam e criam seus versos. Com o fenômeno surge uma nova voz, poderosa e direta. Uma espécie de estandarte indomável dos que, até então, só era permitida a fala domesticada. Debaixo deste guarda-chuva se abrigam desde o proibidão, o funk ostentação com o sonho da ascensão social, até o mais límpido e singelo desejo traduzido no famoso hit Rap da Felicidade, de Cidinho e Doca, dois funkeiros da favela Cidade de Deus, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro: Eu só quero é ser feliz/ Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é/ E poder me orgulhar/ E ter a consciência que o pobre tem seu lugar. Hoje, o funk brasileiro, o mesmo surgido nas favelas do Rio de Janeiro, nas periferias de São Paulo e de tantas outras cidades Brasil afora, é destaque internacional, abre Jogos Olímpicos, é trilha das ginastas brasileiras e tem à frente nomes como Anitta, Ludmilla, Kevin O Chris e MC Livinho, entre muitos outros. Uma voz de pertencimento, identidade e resistência.