(Reprodução/Facebook) Madrugada de 6 de janeiro de 2025. Fernanda Torres ganha o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Filme de Drama. É a primeira brasileira da história a vencer tal prêmio. Ela viveu o papel de Eunice Paiva, viúva de Rubens Paiva, torturado e assassinado pela ditadura militar no Brasil, no longa Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho do casal protagonista. O prêmio, ironicamente, veio dois dias antes de completar dois anos da tentativa de invasão e depredação dos prédios dos Três Poderes, no dia 8 de janeiro de 2023. Durante a cerimônia de premiação, Fernanda Torres afirmou, entre visivelmente surpresa e, é claro, emocionada: “Que história, Walter! E, é claro, eu quero dedicar esse prêmio à minha mãe. Vocês não têm ideia. Ela estava aqui há 25 anos. E isso é uma prova que a arte pode resistir através da vida. Até durante momentos difíceis pelos quais a personagem que eu interpretei, Eunice Paiva, passou. E a mesma coisa que está acontecendo no mundo hoje. Tanto medo. Esse é um filme que nos ajudou a pensar em como sobreviver em tempos como esses”. Tudo é arte e cultura, tudo é política, mas nem sempre estes elementos se misturam de maneira tão intensa. Desta vez, é imprescindível o reconhecimento de Fernanda Torres, de Eunice Paiva, de Marcelo Rubens Paiva, de Walter Salles. Sobretudo de Rubens Paiva. O cinema brasileiro, a arte brasileira, diante do mundo e em nosso nome, diz não mais uma vez à cadela caquética do fascismo. O filme sofreu críticas aqui e acolá por tratar de uma família burguesa, branca. Foi criticado também por ter sido feito pelo filho de um banqueiro. Da minha parte, quero o Brasil repleto de famílias brancas a abastadas com a qualidade, a coragem e o brio da família Paiva. E, por outro lado, adoraria que todos os filhos de banqueiros tivessem o talento de Walter Salles. Questões políticas à parte, é imprescindível também que não esqueçamos: o filme de Walter Salles é impecável, lindo do começo ao fim, com uma narrativa clara, direta e vertiginosa. Tudo nele funciona em perfeita sintonia, desde a iluminação, edição até a interpretação dos atores. E, entre os atores, é claro, está Fernanda Torres no papel principal. Ela nos conduz com o olhar, com cada gesto e ternura para dentro de Eunice Paiva. Não há um só traço de histrionismo, exagero e pieguice em sua atuação. Com a essência do próprio significado da arte, entrega e coragem, ela dá vida, empresta seu corpo à heroína e nos deixa de alma lavada. Foi uma noite gloriosa entre as muitas que ainda nos aguardam o filme. Que ainda nos aguardam a vida e o talento brasileiro. Foi, como dizia Geraldo Vandré, “a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”.