Daniel Friedmann surfando na Praia do Pepino, em 1978, e executando um Hang Five (Divulgação) A trajetória de Daniel Friedmann no surfe brasileiro é a história de alguém que nunca separou mar, trabalho e vida. Aos 16 anos já competia com intensidade, conquistando o Campeonato Carioca de 1972. No ano seguinte, em Ubatuba, tornou-se campeão brasileiro júnior, confirmando o talento que o acompanharia por décadas. Nos anos seguintes, os resultados se multiplicariam: títulos nacionais em Saquarema (1976), Joaquina (1979) e Vitória (1982), além do bicampeonato internacional no Uruguai (1979/80) e o primeiro lugar em Stradbroke Island (Austrália, 1980). Nesse percurso de conquistas, Daniel inaugurou um outro capítulo ligado ao surfe. Ao conhecer Gordon Clark, em 1973, Daniel trouxe ao Brasil uma licença inédita para fabricar blocos de poliuretano — algo até então monopolizado pelo Coronel Parreiras. Nascia a primeira produção nacional do Clark Foam, que mais tarde originaria a linha Special Foam, com fabricação própria. Em seu auge, produziu cerca de 2.000 blocos Clark e 4.000 Special Foam, treinando todo o pessoal envolvido no processo. Essa semente daria forma, pouco depois, à emblemática fábrica New Color, responsável por blocos inteiramente nacionais e, como o nome sugere, em múltiplas cores. Em 1974, movido pelo desejo de viver do surfe pelo mundo, partiu para o Havaí, onde competiu, trabalhou e amadureceu. De lá, rumou ao Japão, ingressando no ramo de importação de pedras preciosas — área ligada à família, mas que também estreitou sua relação com surfistas japoneses, amizades que atravessariam décadas. Retornou ao Brasil no fim de 1975, já com o projeto industrial amadurecido, dividindo seu tempo entre fábrica e competições. O auge competitivo veio em 1977, com a vitória no Waimea 5000, etapa brasileira do Circuito Mundial, iniciada no Arpoador e finalizada no Quebra-Mar. O resultado lhe abriu as portas para o Stubbies Classic, na Austrália, o primeiro evento homem-a-homem da história. Nesse mesmo período, Daniel lançava sua marca de surfwear, a Pro Surf – Daniel Friedmann, ampliando sua atuação como empreendedor. Em 1979, diante da possível ausência da etapa mundial no Brasil, encabeçou — ao lado de Carlos Lorch — um confronto inédito entre equipes: Bronzed Aussies x Brasil Nuts, cada uma com quatro atletas. Foi sua primeira grande assinatura como organizador de eventos, prenúncio de uma longa carreira fora d’água. As surftrips também moldaram quem Daniel se tornaria. No Peru, teve a casa arrombada e o passaporte perdido; no Havaí, viveu sua segunda casa, enquanto sentiu o impacto cultural do Japão e, finalmente, surfou pela África do Sul, Indonésia, Maldivas, Costa Rica, Chile e Uruguai. Em uma dessas travessias, em 1977, viveu um episódio quase cinematográfico: retido em Nova Délhi com apenas 60 dólares, sem visto para a África do Sul e diante de uma multa absurda por excesso de bagagem, negociou até reduzir tudo para US\$ 50 — e embarcou na última hora. Uma vitória tão improvável quanto suas ondas mais críticas. Em 1981, Daniel deixou as competições internacionais para se dedicar integralmente às suas marcas. Em 1985, por questões familiares, migrou para o ramo da hotelaria, onde permaneceu por mais de quinze anos. O afastamento, porém, não seria definitivo. Após o falecimento de Pepê, voltou para assumir a direção da etapa brasileira do Mundial. Foram 11 anos à frente do WCT no Brasil, além do Billabong Pro Junior, vários WQS e eventos da Petrobras e Ecovias. Hoje, segue onde sempre esteve: no surfe. Mantém sua fábrica Daniel Friedmann Surfboards, organiza eventos e desenvolve ações ligadas à preservação ambiental. Porque sua vida, desde o início, nunca foi sobre deixar o mar — mas sobre encontrar novas formas de continuar dentro dele. Acompanhe nossas publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do Surfe @diniziozzi - o Pardhal