Com decisões cada vez mais automatizadas, cresce a busca por seguros contra falhas da IA (Adobe Stock) Era só mais um dia comum na empresa: o sistema aprovava créditos, respondia clientes, sugeria investimentos e organizava relatórios em uma velocidade impossível para qualquer equipe humana. Tudo fluía bem, quase como mágica, até que, em algum momento, algo saiu do trilho. Uma recomendação equivocada aqui, uma decisão automática mal calculada ali. Nada muito diferente do que um profissional humano poderia fazer. Mas havia uma diferença importante: quem, afinal, seria responsabilizado por esse erro? Foi exatamente essa dúvida que começou a movimentar um novo mercado no setor de seguros. Hoje já existe um tipo de apólice sendo adaptado para lidar com falhas causadas por inteligência artificial. Trata-se do chamado seguro de erros e omissões, conhecido pela sigla E&O. Esse tipo de seguro já era comum em atividades profissionais. Agora, a novidade é que esse mesmo conceito está sendo estendido para cobrir decisões tomadas por sistemas automatizados. Na prática, empresas que desenvolvem ou utilizam inteligência artificial já começam a buscar proteção contra situações como decisões erradas feitas por algoritmos, prejuízos financeiros causados por respostas incorretas de sistemas generativos ou até danos no mundo real provocados por agentes digitais que executam tarefas de forma autônoma. Imagine, por exemplo, um sistema automatizado que faça compras em excesso, um algoritmo que recomende investimentos equivocados ou uma IA que produza informações erradas em um relatório importante. Mas, para entender por que esse tipo de seguro está surgindo, é preciso primeiro compreender um ponto essencial sobre a inteligência artificial. Apesar de todo o avanço recente, a IA não é uma máquina de certezas. Ela é, na verdade, uma máquina de probabilidades. Pode parecer estranho à primeira vista, mas os sistemas de inteligência artificial funcionam como modelos estatísticos extremamente sofisticados. Eles analisam enormes quantidades de dados e calculam qual resposta tem maior chance de estar correta. Na maioria das vezes, esse cálculo funciona muito bem. Mas “maior probabilidade” nunca significou “certeza absoluta”. Uma forma simples de imaginar isso é pensar em um GPS. Ele quase sempre indica o melhor caminho, mas eventualmente pode sugerir uma rota que leva a um congestionamento ou a uma rua bloqueada. Com a inteligência artificial acontece algo parecido, e esse fenômeno ficou conhecido no mundo da tecnologia como “alucinação”. Muitas pessoas ainda acreditam que a inteligência artificial não erra. Parte disso acontece porque fomos treinados, ao longo da vida, a confiar nas máquinas. Quando uma calculadora mostra um resultado, raramente duvidamos; quando um aplicativo indica um trajeto, normalmente seguimos sem questionar. No caso da IA, essa confiança pode ser ainda maior porque ela se comunica de forma muito convincente: explica, argumenta e apresenta respostas bem estruturadas. Por trás daquela resposta elegante existe apenas um cálculo probabilístico, baseado em padrões encontrados nos dados que o sistema analisou durante o treinamento. Por isso, mesmo com todo o avanço da tecnologia, a responsabilidade pelo uso da inteligência artificial continua sendo humana. Talvez a grande habilidade do futuro não seja apenas saber usar a IA, mas também entender quando se deve confiar nela e como validar o que ela gera.