(Unsplash) Para a poesia, todo poeta nasce, nenhum tão nascido poeta quanto Thiago de Mello. A força mobilizadora dos seus versos nos convidando para a solidariedade pungente nos Estatutos do Homem rodou o mundo. As escolas brasileiras deveriam ensinar este poema-manifesto mais que truculência disfarçada de civismo. Solidariedade com força igualitária e radical do conceito, nesse tempo em que as palavras fraternidade e comunhão perderam tanto com a frouxidão de sentido refém da hipocrisia. Não é concebível falar em pátria em meio a cobiça e desigualdade. Thiago vestido de branco, Thiago com ares de Gandhi embebido de floresta, Thiago irmão de alma de Neruda, Thiago com voz litúrgica de sacerdote de igarapés e clareiras entrecortadas de sanhaçus e arapongas. Thiago no exílio contra a tirania, Thiago no poema encarnado de verde, um profeta a dizer dos perigos do planeta quando ecologia era uma ideia distante. Contundente, com timbre de ternura. Thiago eivado dum cristalino idioma lírico de quem sai de banho de rio. Arauto de verdades ditas poeticamente: a Amazônia precisa ser salva, se ainda for possível, salva bravamente de todo o ódio à vida. Sua poética, um entendimento, um conhecimento, uma pedagogia da sensibilidade compartilhada. Leio sua obra, flor orvalhada de helicônias, vitória-régia refulgindo lirismo exortatório. O poeta que não declama, diz com ênfase sua crença no encanto, brada o esplendor das miudezas, extrai a sabedoria eloquente das árvores. Versos de seiva e líquen, fotossíntese de conexões imperceptíveis aos não iniciados epifanicamente na magia natural das coisas. Thiago sabedor da correspondência da miraculosa beleza do canto do uirapuru, com um solo de clarinete em Mozart. Tudo se conecta, a floresta é metáfora da potência das sintonias, das simbioses, interligações assombrosas de sentidos, sensações, espécimes e virtudes redentoras. Thiago acendedor de estrelas, que canta ainda que padeçamos no escuro, que embala a esperança com a firmeza de quem embala uma criança entre suaves panos de cambraia, crente ainda no dever humano com a mãe-terra. O poeta que escreve gorjeando para ninar os pássaros, entoa os peixes. “... É preciso encontrar as cores certas para poder trabalhar a primavera... se o mundo foi sempre assim... não me acostumo... ao escárnio da opulência/e o poderio dourado cujo esplendor se alimenta/da fome dos humilhados...”. Poeta do apelo: “... que o pão encontre na boca o abraço de uma canção”. Hoje, às 17 horas, a Casa das Culturas de Santos saúda-te, Thiago! O grupo lítero-musical Cantos Literários, que se esmera na divulgação falada e cantada, apresenta um lindo sarau a ti, que nos ensinou que a poesia não é ornamento de salão, também é trincheira e compromisso! As poetas Eunice Tomé e Clara Sznifer, os músicos Kátia Soares e Plácido Nunes convocam tua multidão de saberes e sabores contidos em tuas estrofes para os teus cem anos neste teu março eterno e nunca ido de todo, pois teu canto resiste e insiste. E que a poesia, “mais do que a flor, seja fruto que maduro se oferece/ sempre ao alcance da mão. Da minha e da tua mão”. Segue a sugestão, caro leitor: leia Thiago de Mello para confiar num ideal “como a palmeira confia no vento... e os girassóis terão o direito de abrir-se dentro das sombras”.