(Imagem Ilustrativa/Pixabay) Acredita-se que a paz mundial promove e é promovida pelo comércio internacional. A paz global das décadas finais do século XX avançou com o otimismo da globalização econômica. As primeiras décadas deste século XXI comprovaram que a globalização veio acompanhada de interdependências em escalas e áreas variadas. O que presenciamos hoje é que, quando a paz se esvai e conflitos locais ressurgem, as interdependências viram incertezas a serem resolvidas. Como ser resiliente em tempos incertos? Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), cerca de 90% dos bens comercializados se dão pelo mar. O fechamento dos portos da Ucrânia levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a alertar que atingimos níveis recordes de insegurança alimentar. Ataques a navios no Mar Vermelho, liderados pelos Houthis do Iêmen em reação à campanha militar de Israel em Gaza, forçaram companhias a suspender o trânsito por uma importante rota marítima. A guerra silenciosa entre Estados Unidos e China envolve comércio, tecnologia, finanças e gera incertezas na balança de poder entre grandes potências. Frente ao crescimento do comércio internacional por vias marítimas, os portos se posicionam como nós estratégicos de cadeias produtivas globais. O gerenciamento de riscos dos portos deve lidar com o cenário de incertezas econômicas e geopolíticas como um novo normal. Muitas vezes, resta apenas o esforço reativo de buscar como se adaptar – ser resiliente. Se como meio/elo das cadeias logísticas os portos apenas reagem sem muito controle sobre as eventualidades globais, há outra mudança disruptiva em curso que exige dos portos postura proativa: a mudança climática. O setor marítimo produz 3% das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE). A Estratégia IMO (Organização Marítima Internacional) 2023 acordou reduzir as emissões por viagem internacional em 40%; investir em tecnologias adicionais que melhorem a eficiência energética, adotar tecnologias, combustíveis e/ou fontes de energia com emissão zero e atingir emissões líquidas zero de GEE por volta de 2050. As metas ambiciosas traçadas pela IMO e acompanhadas pelo setor marítimo apontam os caminhos que os portos devem seguir. Afinal, navios dependem de portos. A gestão de riscos de portos consegue se antecipar e se preparar num esforço de se fazer parte da transformação ainda em curso. Um possível papel para os portos é encorajar a navegação rumo à descarbonização. Ação simples é o estímulo à navegação limpa, como a adesão ao Environmental Ship Index (ESI, Índice Ambiental de Navios), ou iniciativas que melhorem a eficiência das operações de navegação e das cadeias logísticas e permitam a economia de combustíveis e redução de emissões, como a padronização de informações entre portos e a previsão antecipada de tempo de espera na barra. Colaboração é palavra-chave. A descarbonização está forçando os portos e terminais a se anteciparem às mudanças em curso e se reinventarem como hubs de energia para um conjunto de combustíveis que ainda estão sendo estudados. O cenário é de muitas incertezas, entretanto, é esperado dos portos que adequem suas infraestruturas para os novos combustíveis e para os novos navios. A mudança climática provoca novas necessidades e usos de espaços portuários, novas dinâmicas comerciais, inserção em novas cadeias produtivas, planejamento comercial diferenciado e, ainda, um novo tipo de licença para operar junto às comunidades locais. Colaboração é a base para a resiliência e a adaptação dos portos aos novos tempos de incertezas.