Quem nunca foi traído pelo famoso corretor automático? Aliás, se há um ‘vilão’ tecnológico que já tirou risadas e constrangimentos é ele (Pixabay) A tecnologia nos prega peças. Uma amiga contou que chamou um carro por aplicativo e estranhou quando viu que, em plena Rua Oswaldo Cruz, ele estava a 12 minutos de distância. Resolveu entrar numa doceria e embalar umas indulgências doces para comer depois. O problema? Os minutos não mudavam e o bonequinho não saía do lugar mesmo depois de ela achar que tinha demorado uma eternidade escolhendo umas delícias de massa folhada. Quando se deu conta, ela tinha ‘chamado’ o carro pelo aplicativo do Waze, que apontava, na verdade, a localização dela mesma e a distância até sua casa. A partir da história dela, todos na mesa tinham algo para contar. Eu mesma, certa vez, fiz compras no supermercado on-line e não percebi que o endereço cadastrado era o do trabalho. Quando vi, tive que sair correndo para buscar minhas sacolas com o guarda, a quem eu avisei por telefone, senão ele não iria entender nada ao receber uma entrega que continha de sabão em pó e desinfetante a iogurte e sobrecoxa de frango. Um amigo lembrou o dia em que entrou no carro errado e, distraído pelo celular, só percebeu quando já estava quase chegando no destino de outra pessoa que, provavelmente, ficou na mão. Divertido foi o causo (verdadeiro) do casal que foi viajar para Curitiba e fez uma compra em um app de restaurante colocando o endereço do hotel em que estavam. Uma hora depois e nada do entregador. Foram ver e tinha uma mensagem: — Moça, esse endereço é debaixo do viaduto. Não tem nada aqui. — Mas que viaduto? Estou no Hotel X. — Não conheço não. — Mas é bem famoso. Perto da Praça Japão. — Sei não, moça. Recife é muito grande. Que bairro fica? — Recife?! Eu estou em Curitiba! — E eu em Recife, Pernambuco. Esse Brasilzão continental tem ruas com o mesmo nome em todo canto. Resultado: o entregador ficou sem a gorjeta e eles, sem o jantar. Tudo porque a tecnologia facilita tanto a vida da gente que ficamos distraídos e acomodados. Quem nunca foi traído pelo famoso corretor automático? Aliás, se há um ‘vilão’ tecnológico que já tirou risadas e constrangimentos das mais variadas situações, é ele. Um amigo me contou que ao tentar ser prestativo com a sogra, mandou uma mensagem dizendo que estava levando a “sogra linda” para jantar. O que ele não viu, porém, foi o corretor mudando “sogra” para “cobra”. A confusão só foi desfeita na mesa, entre risadas nervosas e um tanto de explicações. A cobra, ops, sogra, claro, riu por último. O mais curioso da tecnologia é que, enquanto facilita a rotina, também nos emburrece. Quantas vezes já me peguei usando o GPS para ir a lugares que eu já sabia como chegar, mas me rendi à ‘sabedoria’ do aplicativo? Uma vez fomos seguindo o GPS para uma cidade cujo caminho estávamos cansados de saber. Nos vimos totalmente perdidos em umas ruas meio suspeitas e bem desconhecidas. No fim deu tudo certo, mas não sem passar um sufoco. E tem ainda as mensagens de voz. Ah, os áudios! Aqueles que a gente manda meio que no automático e só depois percebe que o barulho de fundo nos traiu. Uma amiga enviou um áudio para o chefe explicando o atraso em um relatório importante. Só que, enquanto ela gravava com a voz toda formal e cheia de argumentos, o filho pequeno começou a gritar ao fundo: “Mãããnhee, quero fazer cocô!! Mãããnhee, corre, não vai dar tempo!”. Não teve justificativa que salvasse a seriedade da mensagem. No fim das contas, pode ser divertido ver como nos tornamos dependentes de algo que nos escapa do poder. A tecnologia facilita muito, claro, mas também nos joga na cara de vez em quando que nem tudo pode ser resolvido com um toque na tela. E não é que no fim o resultado dessas distrações acaba nos conectando de uma forma mais humana, com risadas e histórias malucas que nos lembram que, apesar de tudo, nada é como essa relação pessoal. Seja para buscar compras no endereço errado ou para rachar o lanche que nunca chegou. Pelo menos a vida não perde a graça. <EL12> P.S.: enquanto escrevia esta crônica, ironicamente, o sistema que usamos na redação resolveu fechar o editor de texto sem aviso, me dando um frio na barriga, com medo de ter perdido tudo. Será que teria que puxar da minha memória (e não da RAM) o que já tinha alinhavado? Mas, foi meio lá e meio cá. Salvou metade e o resto ficou por conta dos meus neurônios, colocados para trabalhar.