(Freepik) É aquele momento do ano novamente. Dezembro chega, trazendo o sol, as chuvas de verão e, claro, o inevitável ritual: fazer a lista de metas para o próximo ano. Essa tradição, que mistura superstição, esperança e uma pitada de autoengano, já é tão clássica quanto assistir aos fogos na orla de Santos, munida de taças descartáveis para o espumante. Aquelas mesmas taças que acabam sendo lavadas e guardadas ‘para usar de novo’, porque sustentar metas é difícil, mas reciclar o que der, a gente tenta. A listinha em si já virou um evento. Sento para escrevê-la com a mesma solenidade de quem está prestes a redigir um tratado de paz. Uso uma caneta dourada e aquele caderninho empoeirado que, ironicamente, foi usado o ano passado. É sempre o mesmo esquema: “Este ano vai ser diferente!”. E lá vou eu prometer que vou emagrecer, economizar, parar de enrolar, ser mais organizada com os documentos, minhas roupas, meus arquivos... Reaproveito até itens do ano passado porque, veja bem, persistência é uma virtude. Enquanto isso, o espumante aguarda pacientemente na geladeira, enfrentando o calorão de dezembro/janeiro. Sempre tem aquela garrafa que teima em ser difícil de abrir. Geralmente, é uma batalha que eu travo debaixo dos primeiros fogos da virada, suando como quem acaba de cruzar a linha de chegada de um triatlo. Geralmente, mesmo depois de horas no congelador, está morna, afinal o termômetro nas areias santistas não é para amadores (e nem profissionais). Mas não importa, porque a tradição é inquebrável. Ah, e tem os rituais de sorte, claro. Pular sete ondinhas na praia é quase obrigatório. Sempre tento parecer elegante, mas é inevitável sair da água com a sensação de ter feito algo parecido com um balé mal coreografado e com medo de atropelar alguém, já que o ritual manda a gente sair de costas. E já que a gente está na água, literalmente, vamos nos molhar. Entre uma onda e outra, faço as sete promessas de praxe, com direito a um ‘não procrastinar tanto’ sussurrado para o universo. Spoiler: o universo nunca colabora. E a ceia? Lentilha reina soberana. Como adoro, nunca sei se o ritual de prosperidade funciona ou se só estou aproveitando a desculpa para repetir o prato. Já as uvas são mais estratégicas: uma para cada mês do ano, enquanto mentalizo as intenções. Comer os caroços é um sacrifício – mais um para a conta do Réveillon. E, claro, a lista de metas. Sempre inicio janeiro cheia de energia, mas basta chegar fevereiro, com Carnaval e aquele adiamento crônico, que a lista vira peça decorativa. Em março, os itens estão quase ilegíveis, vítimas de respingos de café ou por servir de porta-copo improvisado. Até outubro, já a tratei como um artefato arqueológico soterrado sob re a bagunça que eu prometi arrumar no item 3 das metas. Ainda assim, sigo com o ritual. Assim como assistir aos fogos na praia e brindar com espumante morno, fazer a lista é acreditar que a gente pode melhorar, nem que seja só por duas semanas. Então, que venha mais um ano, com suas metas, lentilhas e ondinhas. Porque, se tem uma meta que eu cumpro religiosamente, é a de nunca deixar de tentar. Em dezembro, estarei de férias. Até janeiro e, desde já, Boas Festas a todos! *Jornalista e gastróloga