(Unsplash) Da minha janela escuto a música alta vindo da escola próxima. É a quermesse que embala última sexta-feira de junho. No microfone, uma voz empolgada anuncia as escolas e dá o tom das quadrilhas. Imagino o pátio enfeitado e as crianças com camisa xadrez, calças cheias de remendos, botas, vestidos rodados com fitinhas coloridas, trancinhas e muito chapéu de palha. É o interior e o sertanejo que contagiam o Brasil em junho. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! E como brasileiro não se segura e adora um arraial, a festa invade julho em vários eventos tradicionais que fazem parte dos calendários oficiais, como o a Festa Inverno que tem um quê de festa julina, com vários quitutes de quermesse. Ainda bem! Junho não podia ser como agosto, o mês que nunca termina? Outro dia parada no semáforo ouvi o som vindo de outra escola e também era um arraial. Soube pela faixa na porta e os alunos vestidos à caráter. Mas, ao contrário do tradicional, a música que tocava era um funk. Sei que anda uma polêmica em torno desse assunto, não só do funk, mas também de sertanejo universitário ‘invadindo’ os festejos juninos tradicionais de cidades como Campina Grande (PB) e Caruaru (PE). Se eu gosto? Não, nem um pouco. Mas entendo que as coisas mudam e a arte é cíclica, é popular e não deve ter preconceitos. Tá eu sei, os professores devem, sim, incentivar que seus alunos a conhecerem a tradição, a música caipira-raiz, no nosso caso aqui de São Paulo, focando no nosso regionalismo. Mas na hora da festa, passando a parte pedagógica, a molecada vai querer dançar o que gosta de ouvir, não tem jeito. E os pais, tios, avós que aguentem. Para minha memória afetiva, quermesse é o que estou agora ouvindo sentada aqui digitando esta crônica. No momento está tocando O baile lá na roça foi até o sol raiar/A casa estava cheia, mal se podia andar/Estava tão gostoso aquele reboliço/Mas é que o sanfoneiro/Ele só tocava isso! Sinceramente, fiquei pensando que a criançada não deve nem saber o que quer dizer reboliço. Mas vale a animação. Eu também não sabia a amava e continuo gostando. Me peguei sacodindo, balançando pra lá e pra cá aqui na cadeira enquanto digitava, ao som da sanfona. Deu até vontade de fazer pipoca. O melhor dos festejos é isso, as lembranças boas que ficam na gente. Me lembro das festinhas da minha infância e também das minhas irmãs. Coincidência, ou melhor, conjunção junina...meu marido chegou em casa todo encantado que no caminho tinha cruzado com uma noivinha caipira de mãos dadas com o pai. Nos cabelos, ela tinha muitas florzinhas decorando as trancinhas e o vestidinho era armado. Ele também falou que passou por um grupo de adolescentes que trajavam camisas parecidas com a que ele estava xadrez vermelha e preta. Ele se achou temático. A Stefanie, minha irmã que é cientista, foi a única de nós que foi noivinha em uma quadrilha. Isso porque era a caçula e convencemos minha mãe a deixar. Era um sonho nosso, mas ela nunca tinha aceitado a empreitada para nenhuma de nós. Afinal, era mais caro e trabalhoso fazer um vestido de casamento. A Fanie (como a chamamos) ficou lindinha e nós matamos a nossa vontade (e talvez nossa frustração) no casório dela, que, diga-se de passagem, ela nem fazia questão. Todos esses ritos, feitos em família, ou com colegas de escola, são uma tradição que tem que ser mantida, preservada, passada para as próximas gerações e parece que realmente seguem vivas e firmes. Talvez, as músicas façam parte disso e precisem também resistir. Fiquei refletindo sobre isso e ainda não cheguei a um ponto. Mas se até hoje a gente canta Capelinha de Melão é de São João... frase que sem pesquisa não faz o menor sentido, eu acredito que há esperança para que as preciosidades juninas sejam eternas, mesmo que de vez em quando a gente ouça um ‘É Popozuda’ no meio do arraial .