(Divulgação) Era uma manhã de sol em Santos. Minha casa estava silenciosa, pois todos já tinham ido para a praia. Acordei mais tarde e encontrei a TV da sala ligada, afinal era domingo e, como em todos os lares brasileiros naquela época, domingo era dia de Fórmula 1. Enquanto eu comia meu pão de cará com manteiga e me arrumava para encontrar meus pais na praia, dava espiadinhas na TV para ver como estava indo Ayrton Senna. Aquela corrida estava tensa desde os treinos, mas ninguém imaginava o que estava por vir. Há acontecimentos tão marcantes e dramáticos que lembramos exatamente tudo o que estávamos fazendo, nos mínimos detalhes, mesmo que isso tenha acontecido há 30 anos. Sim, este ano fez três décadas daquele fatídico dia em que os domingos dos brasileiros mudaram para sempre. A minha turma da faculdade costumava se reunir para assistir aos grandes prêmios. Era um programa como futebol. Aquela música da vitória entoava em todo o quarteirão durante os pódios do Senna. As novas gerações nem imaginam, mas era assim. Por isso, eu me lembro que estava descendo as escadas da minha casa com minha bolsa de praia no ombro quando ‘ouvi’ uma espécie de silêncio na transmissão. Fui para a sala correndo e dali não saí mais. Não teve mais praia nem clima para nada. Não existia celular, senão certamente ligaria para meus pais dando a notícia. Mais tarde eles me contaram que a tragédia logo chegou nas areias do Boqueirão, onde estavam. Um amigo que morava na Austrália ligou à noite sem acreditar, queria a confirmação. Ele tinha acordado lá com a notícia. Era um tempo de telefone fixo e sem internet. A velocidade da notícia podia ser outra, mas o poder emocional foi tremendo. Eu estava na Avenida 9 de Julho, no trânsito de São Paulo, quando o caminhão do Corpo de Bombeiros passou com o corpo de Senna. Ainda me emociono quando lembro da reverência de todos. Naquele dia ninguém se importou em chegar atrasado no trabalho ou do congestionamento da metrópole. Um estudo realizado na Alemanha se debruçou sobre o fato de nos lembrarmos com detalhes do que estávamos fazendo durante acontecimentos históricos dramáticos, como o 11 de setembro, a queda do muro de Berlim e, para nós brasileiros, a morte de Senna. Eles chamam o conceito de lembranças-relâmpago. Uma das conclusões é que quando os eventos são negativos, nos recordamos com mais fidelidade dos fatos. É questão de sobrevivência da espécie. No curso da História humana, conseguir lembrar com exatidão de situações negativas muito possivelmente foi crucial para nos mantermos vivos. Quando os nossos ancestrais se deparavam com algum animal perigoso, convinha marcar essa experiência de maneira bastante precisa – e evitá-la no futuro. Além de lembrar do fato em si, é preciso guardar também as intensas emoções atreladas a ele. Tenho tido esses sentimentos daquele 1º de maio de 1994 voltando com as homenagens que estão sendo feitas na Capital paulista por causa do Grande Prêmio de São Paulo. E veio junto a saudade das corridas que assistia com meu pai, dos churrascos que ele fazia com a TV ligada e de como ele xingava o Prost. Obrigada, Senna, por nos dar tantos momentos inesquecíveis.