(Vanessa Rodrigues/AT) Vinte minutinhos de barquinha partindo de um píer no novo Porto Valongo (até quando será que a gente pode chamar ele de novo?) e a gente chega numa Santos onde o tempo tem outra medida. O percurso engana. Você se despede da roda-gigante e se depara com os vários outros gigantes, ainda maiores e mais impressionantes, que chegam e saem carregados de contêineres do Porto. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A barquinha parece uma formiguinha diante dos navios com que cruzamos nesse curto trajeto. Vamos passando também pelas indústrias da área portuária. Terminais de todo tipo, com suas estruturas metálicas, silos e guindastes que me lembram aqueles filmes dos Transformers, que meu sobrinho adorava. Parece até que vão ganhar vida. E os trabalhadores de vários desses terminais usam barquinhas todos os dias para ir e vir de seus empregos. Encontramos alguns deles enquanto estávamos no píer. A vida de quem mora numa ilha é mesmo uma simbiose com o mar (se bem que a gente mais tira do que dá). O mar que é porta de entrada de gente e mercadoria de todo canto. O mar que nos leva rapidinho, num trajeto curtinho para uma outra ilha, mas que ainda é Santos, onde a paisagem, de repente, sem aviso, como se passássemos por um portal imaginário, muda. As estruturas metálicas e o barulho do trem, de caminhões ou guindastes cede espaço ao verde e aos pássaros. É o aviso de que a Ilha Diana, um bairro santista, está perto. Lá, assim que a gente desce do barco, o primeiro sinal de que sim, ali o relógio tem outro ritmo, são dois orelhões. Para quem não é dessa época, orelhões são telefones públicos, um equipamento pré-celular, que era item de primeira necessidade e existente a cada esquina, movidos a ficha e depois a cartões. Hoje, objetos de museu ou de lugares sem pressa. Casinhas coloridas, capela de Bom Jesus, barcos de pesca, gente na porta de casa conversando, crianças indo juntas, sozinhas, para a escola. Tudo isso num cenário emoldurado pelo mar e pelo verde. Ali, fui gravar com Matheus Croce e Danilo Santos um Papo Tribuna que em breve vai ao ar. A gente foi à casa de Dona Zazá, que preserva a receita caiçara do azul-marinho, um peixe com banana. Ela mesma foi seduzida por essa ilha de tranquilidade. Está lá há 30 anos, desde que a filha começou a namorar um pescador nativo. Do mar, tira o que sabe misturar com maestria na panela, principalmente os mariscos, abundantes por ali. Aproveita tudo. Das cascas, faz até bijuterias. Na volta, nossa barca estava cheia. Muitos jovens que servem na Base Aérea de Guarujá, estrategicamente instalada de frente para esse braço de mar, usam-na como transporte. Há mais de 30 anos, na Faculdade de Jornalismo, na UniSantos, que completa este mês 70 anos, eu tive uma matéria chamada Realidade Regional. O professor, o saudoso Dirceu Fernandes Lopes, nos levava a lugares periféricos ou isolados da Cidade para reportagens. Naquela barquinha, lembrei disso. Das aulas, da primeira vez que fui à Ilha Diana logo no início de carreira. Apesar de ver muitas melhorias para os moradores, a essência da vida ali não mudou e a simbiose com o mar segue seu ritmo, às vezes na baixa, outras na ressaca.