O total de analfabetos – maiores de 15 anos que não sabem ler nem escrever – superou a marca dos 11 milhões no ano passado, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse número de pessoas à margem do conhecimento e, consequentemente, relegadas às mais vulneráveis condições sociais impressiona – ele equivale à toda a população do Paraná ou à soma da Noruega e Dinamarca. Entretanto, em relação aos habitantes do País, são 6,6% de brasileiros analfabetos, próximo da meta 6,5% traçada para 2015. Apesar desse atraso de quase meia década, o fato positivo é que aos poucos essa chaga social está em queda. Mas a boa notícia termina aí. Se o analfabetismo de 6,6% for estudado por estratos sociais, raça e regiões do País, os resultados são aterradores. A impressão que se tem é de que há vários tipos de fendas que dividem o Brasil, não deixando dúvidas de como este é um país de amplas e tristes desigualdades. Por exemplo, dos 11 milhões de analfabetos, 76% são pretos ou pardos. No estudo por regiões, o Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) se sai muito bem, com 3,3% de analfabetismo. Mas a pesquisa indica que essa condição ainda atinge proporções impensáveis para o século 21 no território nacional. De acordo com o IBGE, dos 11 milhões de analfabetos, 6,2 milhões estão no Nordeste (56% do total). Por isso, o índice do Nordeste, na comparação com o do Sul, quadruplica – o analfabetismo nordestino é de 13,9%. Considerando-se as dimensões continentais do Brasil, essa região registra menor alfabetização que qualquer país da América do Sul. Os dados do IBGE também mostram que, por faixa etária, o analfabetismo está concentrado nos idosos. Entre os maiores de 60 anos o índice é de 18% e, se forem pretos ou pardos, o resultado vai a 27,1%, parecido com o de países com histórico de guerra civil, como Ruanda. Mas se observados os idosos apenas do Nordeste, o analfabetismo nesse grupo etário chega a 37,2%, a média das nações mais pobres da África. No Sudeste e Sul, os maiores de 60 anos que não sabem ler nem escrever estão abaixo de 10%. Obviamente que apenas dominar a escrita e a leitura não garante bons empregos e uma melhor qualidade de vida. É preciso haver um número maior de anos dedicados à sala de aula. O IBGE também estudou essa realidade, revelando dados ainda decepcionantes. De cada dez jovens que terminam o Ensino Médio, seis não continuaram seus estudos por falta de condições financeiras – precisaram trabalhar para ajudar suas famílias. Esse dado ainda não considera os que largaram o Ensino Médio pela metade por motivos parecidos. Com estatísticas assim, pode-se lançar um olhar mais crítico ao Brasil e às políticas públicas que não conseguem avançar a um ritmo aceitável. Infelizmente vários brasis continuam abandonados à própria sorte e nada de significativo se vê no campo da educação.