A escolha do Legislativo

Com esta estratégia clientelista, Bolsonaro se divorcia por completo de suas promessas de campanha eleitoral

Por: Da Redação  -  31/01/21  -  09:00

O presidente Jair Bolsonaro tem amanhã elevadas chances de dupla vitória no Congresso. Na Câmara, Arthur Lira (PP-AL) é favorito para levar a presidência da casa, enquanto Rodrigo Pacheco (DEM-MG) deve vencer no Senado. Reviravoltas e candidatos alternativos costumam surpreender em disputas, ainda mais com voto secreto. Assim foi com Severino Cavalcanti em 2005 e o atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), que derrotou o fortíssimo Renan Calheiros (MDB-AL), talvez a raposa mais matreira do Parlamento. Porém, a jogada de Bolsonaro está bem armada sob a velha estratégia da farta e bem azeitada distribuição de cargos e verbas. Uma vez vitorioso, se os parlamentares honrarem seus compromissos na integra, Bolsonaro terá múltiplas conquistas, como governabilidade, aprovação de sua pauta de costumes, viabilização de reformas e, principalmente, a blindagem dele próprio ou dos filhos.


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Entretanto, com esta estratégia clientelista, Bolsonaro se divorcia por completo de suas promessas de campanha eleitoral. O centro de seu programa era romper com a velha política, que agora estará associada de corpo e alma a seu governo, e negociar com frentes parlamentares, o que nunca funcionou. Ele também prometeu encolher a estrutura de ministérios, cujo tamanho acentuado para comportar apoios marcou os governos petistas, como o de Dilma. Ao assumir em 2019, o presidente reduziu as pastas de 29 para 22. Agora, ele admite recriar, se Lira e Pacheco vencerem, os ministérios da Pesca, Turismo e Cultura. Também se discute uma reforma para atender a volúpia do Centro dos cargos, demitindo Eduardo Pazuello da Saúde, e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, sobra da ala ideológica e totalmente dispensável pelos erros cometidos – não tem interlocução com chineses e fechou conexões com os americanos.


A guinada de Bolsonaro quanto as suas promessas eleitorais mostra que palavra de político da época da campanha nada vale, o que é muito ruim pelo descrédito que gera. Por outro lado, os compromissos acertados agora nos bastidores prometem votos para pautas sem a mínima urgência, segundo a Globonews, com base em relato de parlamentares: uso de armas, terras em reservas, carteira digital dos estudantes e fim da obrigatoriedade dos balanços das empresas na mídia impressa. Pandemia e desemprego não foram citados entre as prioridades.
Nem sempre os acertos saem como esperado e surpresas acontecem. Ainda não se sabe se Bolsonaro espera obediência de Lira e Pacheco e se os cargos e verbas serão suficientes para virarem votos em temas polêmicos no plenário. É possível que a pandemia ainda gere muita pressão sobre a política ou que o legislativo se incomode com essa imagem bem nítida que passa de submissão interesseira sustentada pelos recursos do contribuinte. Já o comportamento da opinião pública só o tempo vai mostrar.


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