“Não faz muito tempo que falar em fazer concessão de estrada era entendido como privatização", disse Lula (Rafa Neddermeyer/Agência Brasil) Além de elevar ontem a taxa Selic em um ponto percentual, para 12,25% ao ano, o Banco Central deixou bem claro que os juros básicos vão avançar com mais força no primeiro semestre de 2025. A instituição sinalizou que vai adotar mais duas altas de um ponto percentual nas reuniões de janeiro e março. Apesar da intenção anunciada, se a inflação arrefecer, é possível que a autoridade monetária reduza seu ritmo e alivie a economia de um grande tranco. Se a inflação permanecer não apenas resistente, mas crescente em alguns setores do consumo, como alimentos, o rigor do BC vai segurar o crescimento do País, que em 2024 deve chegar a um surpreendente 3,5%. A diferença desta vez é que o impacto será suavizado pelo ritmo atual da economia, de mercado de trabalho, varejo, indústria e serviços aquecidos. Falta saber se o agronegócio vai se recuperar, o que depende do clima e das cotações. Estudos de economistas indicam que o impacto de uma mudança na Selic demora até seis meses para ser sentido. A preocupação vai se concentrar no crédito, cujas taxas já estão em ascensão devido às subidas anteriores da Selic. Mas o problema é que as últimas altas da Selic vieram seguidas de mais inadimplência. Apesar das condições vantajosas do Desenrola, programa de renegociação de dívidas, muitas famílias continuam com contas atrasadas, o que é impressionante, pois houve aumento da renda com a geração de empregos. Há ainda o endividamento das pequenas empresas, reflexo dos juros que subiram sobre os empréstimos emergenciais da pandemia, e também das médias e grandes companhias. Destas últimas, houve muita reestruturação e várias delas conseguiram se recuperar. Porém, com Selic que pode chegar a 14,25% em março, é previsível mais calote. Existe ainda o segmento de emissão de títulos, uma alternativa das empresas ao financiamento bancário. As taxas mais altas atraem investidores de risco, mas se houver queda muito forte do faturamento dessas companhias, poderá haver solavancos. A reunião desta semana foi a última de Roberto Campos Neto na presidência do BC. Portanto, devem terminar os atritos do Palácio do Planalto e o PT. Fica agora a expectativa de como será o relacionamento do governo com Gabriel Galípolo, sucessor de Campos Neto que participou da campanha eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva. Galípolo terá independência para conduzir a instituição. Ontem, ele votou ao lado de Campos Neto, assim como os demais diretores, pela alta de um ponto, que foi prevista apenas por um quinto dos analistas do mercado. Com base nos discursos recentes de Galípolo, pouco desse rigor deve mudar, o que mostra que as críticas de Lula ao BC foram perda de tempo, prejudicando a economia. O importante agora é que o governo faça sua parte, cortando gastos, pois o dinheiro público, cujo rombo é financiado a juros altos (portanto, vai crescer mais ainda), tem participação importante na pressão sobre a inflação.