(Unsplash) Os primeiros decretos assinados ontem pelo presidente americano Donald Trump mostram que ele pretende cumprir sua linha radical da campanha. A convenção, tanto na política interna como nas relações internacionais, é de que, passada a eleição, as brigas são superadas pela união nacional e o Executivo eleito representará a todos. Com Trump, com base no dia de sua posse, o que se viu foi uma opção de manter o país dividido, com discurso voltado a quem o elegeu, e que assim vai calibrar suas relações com os países em geral. Resta ao Brasil, que não está entre as prioridades da gestão trumpista, usar da boa diplomacia para não entrar na mira desse tiroteio. Como prometido, Trump decretou emergência na fronteira com o México e o fim da obrigação de juntar crianças e pais imigrantes ilegais. Ele também acabou com as políticas de diversidade no serviço público federal e tirou os EUA do Acordo de Paris (metas contra mudanças ambientais) e da Organização Mundial de Saúde (OMS), entidade abominada pelos extremistas. Trump também mostrou que terá um governo midiático. Com o frio, o eleitorado não teve como acompanhá-lo das ruas. Reunidos em um ginásio, seus admiradores o viram assinar alguns dos vários decretos, prova de que vai cumprir as promessas. Porém, assinar papéis não resolve tudo. Muitos americanos estão preocupados com a falta de mão de obra estrangeira se ilegais forem deportados aos milhões. Trump terá que dar resposta econômica a isso. Mas nem tudo foi povo na posse. A presença dos magnatas da Meta, Amazon, Tesla, Google e Apple foi muito significativa. Eles ficaram à frente até de familiares de Trump e secretários de governo. Portanto, além da maioria no Congresso e da Corte conservadora, o republicano terá o apoio das gigantes da tecnologia. Elas buscam liberdade na inteligência artificial e escapar dos processos das leis antitruste. Nas redes sociais, um horizonte sem regras. Trump disse ainda que terá uma boa relação com o Brasil e a América Latina, mostrando que o presidente Lula agiu certo ao ser comedido e dizer que torce pela “gestão profícua” do americano. Mas Trump também falou: “nós não precisamos deles (latinos-americanos), eles precisam da gente”. Isso mostra a baixíssima prioridade da região para os EUA, o que não surpreende, pois se trata de uma marca dos governos americanos anteriores, republicanos e democratas. Contudo, agora há a China investindo pesado em infraestrutura, de trens e energia no Brasil a porto no Peru. Aliás, nessa área, Trump disse que falava sério sobre ter o Canal do Panamá de volta. Talvez a China, para se resguardar, retome o projeto de 2013 de construir uma passagem na Nicarágua. Ele deve ter mais artilharia contra o país asiático, outra promessa de campanha. Dos países alheios a essa briga, a boa estratégia será a de se tornar uma alternativa, sem deixar que a polarização interna, no caso brasileiro, ameace eventuais oportunidades.