A fumaça das queimadas tem se espalhado pelo país (Edmar Barros/Futura Press/Estadão Conteúdo) Calor insuportável no inverno, seca de cinco meses em algumas regiões, queimadas simultâneas nos biomas, animais carbonizados e, quando vem a chuva, ela chega preta, com poluentes. Esse quadro é assustador e faz temer pelo futuro. Entretanto, a classe política parece que não compreendeu a gravidade da situação ou não tem disposição para tratá-la da forma esperada, o que é um erro inaceitável. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! No começo do mês, os parlamentares, apesar do horizonte de Brasília coberto pela fumaça, tinham como prioridade o confronto com o Supremo Tribunal Federal (STF) e a anistia do 8 de Janeiro. Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou convocar uma reunião com governadores para discutir as queimadas, mas ele próprio não foi – cumpriu agenda em Alcântara (MA). A ausência irritou os convidados, com o goiano Ronaldo Caiado (União) reclamando que o Governo Federal está despreparado para enfrentar o problema. Caiado disse que as iniciativas e a liberação de recursos chegam atrasadas porque as chuvas retornarão em novembro. Tal comentário parece encarar essa crise como temporária, que vai ser corrigida na troca de estações. Porém, as mudanças climáticas se caracterizam pela intensidade desproporcional. Pelo jeito, os políticos ainda não se convenceram que há uma prioridade, o aquecimento, que poderá comprometer a sobrevida da atual e das próximas gerações. Educação, saúde, habitação e crescimento econômico são os desafios do Brasil, mas resolvê-los dependerá dos efeitos devastadores das mudanças climáticas. A atual crise repete o roteiro da tragédia gaúcha, com liberação de recursos emergenciais atrasada pela burocracia, acusações políticas sobre a responsabilidade pelo problema, e promessa para criar protocolo ou plano para futuras catástrofes climáticas. Apesar da promessa eleitoral de criar a função da autoridade climática, apenas agora esse cargo deve sair papel. O grosso do trabalho contra seca e incêndios, que atingem de uma só vez mais de dez estados, do Sul-Sudeste até o Oeste da Amazônia, deve ser feito por técnicos. Mas a resposta política, que é o que definirá o tom da reação e a costura de solução coordenada, precisa ser dada pelos líderes máximos, como o presidente e governadores. Mesmo que houvesse um plano emergencial, a tragédia climática seria gravíssima. Mas algum planejamento ajudaria a liberar recursos de forma expressa e reunir um número maior de profissionais na linha de frente de combate ao fogo. Isso também atenuaria o sofrimento da população e a área destruída, salvando mais animais. A tragédia infelizmente ganhou dimensões impressionantes, mas não é possível contar com a ajuda do clima, sendo urgente agir em conjunto para reduzir o impacto do estrago já consumado ou impedir que ele piore. Mas não há garantia que o momento atual servirá de aprendizado contra às próximas adversidades ampliadas pela ação humana.