O maior infortúnio que poderia ter havido ao general Eduardo Pazuello foi se tornar ministro da Saúde. Num país sem demandas bélicas às Forças Armadas, exigiu-se dele que se submetesse a uma prova de capacidade pela qual não passaria até a reforma. Viveria em paz com seu soldo. Ao sair da pasta, levará o risco de condenações em inquéritos decorrentes da condução da pandemia de covid-19. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! O mal se avoluma para Pazuello porque se limitou a cumprir as ordens de seu comandante no Governo e no Exército: o presidente Jair Bolsonaro, cujos pontos de vista peculiares retardaram gravemente o combate à doença no País. Inclusive, a compra de vacinas. Nada, talvez, poderia expor com mais clareza e objetividade os motivos de o Brasil ser o atual epicentro da pandemia do que as entrevistas concedidas pela médica cardiologista Ludhmila Hajjar, ontem, aos canais de TV por assinatura CNN e GloboNews. Cotada para o ministério, reuniu-se com o presidente, mas declinou. Afirmou aos jornalistas que o controle da doença “depende da mudança do que o Governo atual pensa da pandemia”. Disse também que o Planalto espera ter no ministério alguém “alinhado com o desejo do Governo. Certamente, eu não sou essa pessoa”. E advertiu: “O cenário no Brasil é sombrio. Acho que o Brasil vai chegar a 500 mil, 600 mil mortes”. Ludhmila é profissional de renome. Cuidou de Pazuello quando este contraiu covid-19. Chegou ao gabinete de Bolsonaro apoiada pelo representante do Centrão, Arthur Lira, presidente da Câmara dos Deputados. Por que a recusa? Por falta de ciência e autonomia. Em entrevista coletiva ontem à tarde, Pazuello declarou que “não estou doente” e “não vou pedir para ir embora”. Mencionou que “o presidente está na tratativa de reorganizar o ministério”. Numa comparação de cunho militar, declarou que “a manobra mais difícil que nós temos é substituição em posição”, quando se refere à troca de uma parte da tropa durante o combate. Afinal, diz, “é continuidade na missão. Não há rompimento”. À noite, surgiu o nome do futuro ministro, o quarto em menos de um ano. Trata-se do presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Marcelo Queiroga. Pelo que se conhece dele, é defensor de distanciamento social e contrário ao tratamento precoce. Igual a Ludhmila. Afirma-se, contudo, que é mais “político” e poderá manter o que pensa, apesar da orientação oficial. Em resumo, com base em tudo o que foi declarado: o presidente procurava um novo ministro. Bolsonaro pretende reorganizar a pasta. O atual titular não pediria as contas e, em sua visão, trocar o comando da tropa no meio do combate é um movimento delicado. E, mesmo mudando o nome, o objetivo é manter o que há. Ainda assim, a ocupação do cargo por alguém da área da saúde, com conhecimento de causa e atuante, pode representar uma mudança na condução da pandemia. Dependerá dele e de sua capacidade de convencer o Planalto sobre o que é mais correto fazer.