(Matheus Tagé/AT) Com uma inflação de 3,93% nos últimos 12 meses, a primeira impressão que se tem é de que os preços estão controlados no País. Desde 2002, último ano de Fernando Henrique Cardoso, apenas 2006 (3,14%) e 2017 (2,95%) tiveram resultados inferiores, sendo que para este ano o Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com analistas do mercado, prevê Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 3,98%. Por outro lado, o País também registrou IPCA acima de 10% – de 12,53% em 2002, de 10,67% em 2015 e de 10,05% em 2021. Portanto, não se pode menosprezar a experiência dos últimos 22 anos e muito menos os traumáticos anos 1980 e 1990. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Para correntes da esquerda, uma inflação mais alta é tolerável, dispensando juros elevados para viabilizar um crescimento do Produto Interno Bruto robusto. Porém, como proteção contra uma alta de preços, a sociedade adotou uma série de indexadores nos contratos para se proteger contra a desvalorização da moeda, que hoje funcionam como um gatilho inflacionário. De aluguéis a empréstimos e concessões de serviços públicos, os valores são corrigidos automaticamente, sem ser necessária, por exemplo, uma negociação para se adequar aos preços do momento. Além disso, não há uma sintonia entre o Banco Central, mesmo antes da autonomia, e os seguidos governos, que injetam dinheiro público para aquecer a economia, enquanto o BC sobe os juros. Numa estratégia dura, a autoridade monetária encarece o crédito, restringindo o investimento e o consumo, o que desestimula a subida de preços no setor privado. Na prática, enquanto um lado enxuga, o outro inunda o mercado. Assim, uma política monetária recessiva demora mais para atingir seus resultados, mantendo baixo crescimento e inflação acima da meta (hoje o IPCA está acima da meta de 3%, mas há um teto de tolerância de 4,5%). O grande nó da economia mundial está nos Estados Unidos, com inflação anual de 3,4% e o Federal Reserve (BC local) mantendo juros altos para padrões americanos, entre 5% e 5,5% (no Brasil, a Selic está em 10,5%). Depois de quatro décadas de tranquilidade, os EUA registraram aumento de preços de 7% em 2021. Agora, a economia dos EUA passa por um vigor inesperado e mesmo assim o Governo Biden enfrenta muitas críticas, que do lado econômico estão relacionadas à perda do poder aquisitivo. A tecnologia elevou o lucro das empresas e o número de bilionários, mas o cidadão sentiu no bolso os produtos mais caros no supermercado. Aqui no Brasil, esse problema é corriqueiro, bastando observar que carne e arroz tiveram altas bem acentuadas de tempos e tempos, sinal de falhas na política monetária. Isso é trágico em um país com tantos pobres, pois alimentos pesam proporcionalmente mais na renda do que no caso das classes média e alta. Portanto, o rigor contra a inflação, que é um remédio amargo, precisa ser certeiro, pois vai beneficiar a baixa renda.