[[legacy_image_281358]] Ensino, pesquisa e extensão. São esses os três pilares que compõem o papel de uma universidade no Brasil. Ensino para formar novos profissionais, pesquisa para avançar na descoberta de novos conhecimentos que façam sentido à vida e equacionem questões vitais para o planeta e extensão para se aproximar da comunidade com seu corpo docente, discente e práticas acadêmicas. Os três pilares são fundamentais, mas a pesquisa, em particular, nem sempre consegue espaço na sociedade maior do que aquele cedido pela imprensa. Pesquisas como a divulgada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) sobre a presença de microplásticos no estuário de Santos, em escala tão grande que faz desse ambiente o mais contaminado do mundo, deveriam ganhar escala e movimentar as autoridades para que a novidade não ficasse restrita à divulgação, e em breve esquecida no tempo. As concentrações anormais de microplásticos foram encontradas em mexilhões e ostras coletados em três pontos do estuário santista. Esses animais são referência para esse tipo de estudo porque funcionam como filtros, retendo a substância em seus organismos. Ostras e mexilhões são animais marinhos fortemente usados na gastronomia local, então, é impactante imaginar que a contaminação esteja sendo servida no cardápio dos moradores ribeirinhos e nos restaurantes da região, que compram esses crustáceos para pratos variados. Mas para além desse cenário, pode-se intuir que um ecossistema contaminado com esse nível de microplásticos esteja impactando outras cadeias, com prejuízo ainda não dimensionados. Embora ainda não existam estudos claros sobre o impacto de microplásticos à saúde, danos às células humanas já foram reportados. Durante a pandemia, estudo conduzido pela Secretaria de Meio Ambiente de Santos (Semam), pela Unifesp e Unisanta identificou alguns dos materiais mais presentes na areia das praias, em trechos previamente demarcados e inspecionados por várias vezes, e também lá o plástico predominava em forma de pequenos grânulos cilíndricos, a matéria prima usada pela indústria plástica. Por diversas razões, esse material acaba nos oceanos e dificilmente é recuperado. A etapa seguinte ao estudo conduzido pela Semam seria identificar a origem desses materiais, assim como deveria ser feito com o microplástico agora encontrado no estuário, em fragmentos menores ainda. E esse deve ser o fluxo natural de qualquer pesquisa cujas conclusões se mostrem relevantes e urgentes para a sociedade. Não faltam evidências científicas de que o oceano está poluído, de que essa poluição afeta fauna e flora, de que a inação amplia os impactos negativos sobre as cidades e as atividades humanas. Embora as ações devam vir de toda a sociedade, esse é um movimento que precisa ser encabeçado pelos governos.