(Kamil Krzaczynski / AFP) Desde sua campanha até a vitória triunfante, e nas últimas semanas, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, tem feito uma série de ameaças de protecionismo comercial. As que mais repercutiram foram disparadas contra o México e Canadá, países vizinhos e parceiros. Contra a China, elas já são aplicadas desde o primeiro mandato de Trump e foram ampliadas pelo Governo Joe Biden. O republicano também sinalizou punir o Brics (emergentes Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) caso adote moeda alternativa ao dólar. Em relação à Europa, exigiu que o continente compre petróleo e gás americanos se não quiser ser sobretaxado. Neste setor, os EUA, Brasil e Guiana estão ampliando as exportações do óleo, frustrando a estratégia do Oriente Médio de reter oferta para melhorar o preço. Mas o fato é que os americanos são grandes consumidores, precisam fazer estoques altíssimos por questão estratégica e não podem se envolver em brigas sob risco de problemas no médio prazo. Tanto que uma das cartas na manga é reduzir suas sanções contra a Venezuela em caso de subida das cotações ou de nova confusão no Oriente Médio. Os economistas estão pessimistas com o reflexo dessa política de Trump. A imposição de tarifas deixará os produtos mais caros, pois o país não deverá imediatamente substituí-los pela fabricação interna. E o protecionismo tem o efeito indesejado de beneficiar empresas menos competitivas por meio de barreiras aos concorrentes internacionais. No fim das contas, haveria inflação e o Federal Reserve tenderia a subir os juros, desacelerando o crescimento dos EUA, que entre as economias mais ricas é a mais pujante neste momento. Entretanto, Trump tem feito suas afirmações em tom de ameaça, como forma de barganha, e não se sabe até onde está disposto a chegar. No caso do México e Canadá, ele disse que precisam colaborar combatendo a imigração ilegal e o tráfico de drogas. Contra a China, cujo cerco já está focado em evitar o acesso a chips de alto processamento, Trump acusa o país de exportar insumos químicos usados pelos cartéis de narcotráfico mexicanos, algo que Pequim nega. A conclusão que se tem, segundo reportagem do jornal Valor, é que Trump enfraquecerá o nearshoring, a realocação de fábricas da China para países vizinhos, como México e Canadá, fenômeno que avançou com a guerra da Ucrânia e a briga com Pequim, e o fortalecimento do friendshoring, economias amigáveis ou transitáveis, como Vietnã e Brasil. O Brasil também sairia ganhando por ser exportador de commodities, mercadorias estratégicas para grandes consumidores. O desafio do País, que na prática já ocorre, é o de se tornar um dos grandes alvos do excedente de produção chinesa, que vai reduzir seus preços se tiver mais dificuldades para entrar no Ocidente. A diplomacia neutra do Brasil e seu eficiente corpo de negociadores comerciais deverão ser de grande utilidade neste e nos próximos anos.