(Fernando Frazão/Agência Brasil) Apesar dos sustos desde domingo, o Brasil conseguiu com que suas pautas evoluíssem na cúpula do G20, demonstrando a habilidade de seus diplomatas e do presidente Lula para que o encontro terminasse com um comunicado de intenções razoável. Esse feito não deve ser minimizado, pois o mundo está dividido em uma nova guerra fria e, justamente durante o G20, os EUA autorizaram a Ucrânia a disparar mísseis americanos, com a Rússia ontem ameaçando usar armas nucleares. Organismos como o G20 não fazem milagres, como resolver mazelas econômicas, acabar com guerras e equilibrar o poder entre os países. Com dois blocos opostos se consolidando no mundo, o documento final de uma cúpula como a do G20 aproxima diplomatas, que fazem toda a conversa prévia para seus líderes. Assim, se mantém o diálogo, e isso não se refere apenas às potências. O argentino Javier Milei, antecipando-se a Donald Trump, no fim foi convencido a ceder, sentindo que ficaria isolado se não assinasse a carta final. Em contrapartida, conseguiu se reunir com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e o presidente chinês Xi Jinping, que tomou o lugar dos Estados Unidos como investidor na América do Sul. O mercado argentino gostou e a Bolsa de Buenos Aires subiu quase 2,8% ontem. Ao presidir o G20, o Brasil deu prioridade ao tema do combate à fome por meio da Aliança Global, taxação de super-ricos e financiamento climático. Um olhar profundo mostra que o Brasil teve bons resultados, pouco profundos, mas importantes para a influência brasileira no mundo e os países pobres. O FMI já admitiu que a dívida dessas nações se tornou impagável, tema que voltou à tona no G20. A Zâmbia hoje gasta seu orçamento mais com juros aos credores do que com saúde e educação. E com a Aliança Global, instituições mundiais se comprometeram a investir no desenvolvimento das nações carentes, enquanto Lula conseguiu emplacar as discussões sobre taxar super-ricos. Além disso, os emergentes evitaram que as economias ricas, que poluíram o planeta desde a era pré-industrial, passassem para eles parte da conta climática. Isso não significa que daqui para frente os países pobres terão suas dívidas resolvidas. Também é muito difícil taxar super-ricos, pois eles migrariam para países com brechas tributárias. E até agora não se resolveu como transferir recursos para as nações mais atrasadas na transição energética ou na mitigação das mudanças climáticas, assim como o Conselho de Segurança da ONU segue travado no poder de veto das potências. No fim, espera-se que o G20 se consolide como fórum de negociações, ao contrário do G7, muito mais fechado. O risco de impasse é maior, porque há adversários dentro do G20, e interesses contrários, como ricos e emergentes, credores e endividados. Mas é preciso aguardar as futuras reuniões para avaliar a sua efetividade.