(Nelson Jr./SCO/STF) As eleições de Hugo Motta (Republicanos-PB) e de Davi Alcolumbre (União-AP) para as presidências, respectivamente, da Câmara e do Senado, consolidam o centrão e um semiparlamentarismo informal, com o Poder Executivo enfraquecido. Motta e Alcolumbre darão continuidade ao sistema de emendas parlamentares, porém, sob a pressão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, que corretamente cobra transparência nos repasses. A iniciativa do magistrado e a possibilidade de se multiplicarem investigações pela Polícia Federal sobre o uso desses recursos geraram ameaças de retaliação por parte de integrantes do Parlamento e suspeita de conluio com o Palácio do Planalto, que nega qualquer envolvimento nesse sentido. De qualquer forma, Motta deu recados de que vai fortalecer a Câmara, o que geralmente se espera do discurso de seus presidentes. Entretanto, como o clima ainda é de confronto, sua fala foi sinal de que a casa não arrefecerá de sua força e de suas emendas, de eficácia comprovada nas eleições municipais para garantir a vitória dos aliados, o que na prática retroalimenta o centrão. As emendas parlamentares substituíram a coalizão de partidos que apoiou os governos desde a redemocratização, com grande poder nas mãos do Executivo via distribuição de cargos e verbas a estados e municípios. Agora, déficits elevados, recursos carimbados (obrigatórios por lei) e explosão das despesas da Previdência deixam margem ínfima para o governo investir e barganhar apoio político. Para prefeitos e governadores, se tornou mais prático atrair dinheiro de emendas parlamentares. O problema é que esses projetos podem não ser as prioridades da população, até porque nem todas as cidades têm acesso a deputados e senadores. Segundo analistas políticos, Motta será mais afável ao Planalto do que o ex-presidente da casa, Arthur Lira (PP-AL), enquanto Alcolumbre se revelará menos amistoso do que o antecessor Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Lula sofre agora os reflexos da eleição de uma base minguada em 2022, tornando-se refém do centrão. Mas o presidente, mesmo em um momento de queda de popularidade em seus redutos, segue favorito nas pesquisas para 2026, um fato que pesa sobre Motta. Para os brasileiros, essa relação precisa ser a melhor possível devido a projetos importantes na fila da votação, principalmente o da regulamentação da reforma tributária e do projeto do Imposto de Renda, este último uma proposta estratégica para a reeleição do petista. O País passa por um momento de pressão inflacionária e tensões comerciais causadas pela estratégia agressiva e desmedida do presidente americano Donald Trump. Regulação das redes sociais e projeto da anistia ao 8 de Janeiro, em meio a investigações da PF que atingem o ex-presidente Jair Bolsonaro, devem gerar muitos atritos no Parlamento, talvez até mais do que no ano passado, pois tudo que for decidido terá os olhos voltados para 2026.