(Marcelo Camargo/Agência Brasil) A solenidade dos dois anos dos ataques golpistas às sedes dos três poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, teve o tom certo da defesa da democracia. Naquele dia, a barbárie tomou conta da capital federal, com a destruição do patrimônio público, representada pelos vidros quebrados, cadeiras arremassadas e obras de arte jogadas ao chão ou perfuradas, mas também com o uso da violência para tentar reverter à força o resultado das urnas. Deve-se ressaltar ainda, como lembrou o jornal O Estado de S. Paulo, 86% dos brasileiros condenaram esse ato golpista, o que envolve eleitores dos dois campos polarizados, conforme mostrou pesquisa Genial/Quaest. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conduziu ontem a cerimônia do abraço da democracia, contestando os ataques e defendendo a solidez das instituições, o que de fato frustrou os golpistas. Porém, a ideia de fazer uma solenidade voltada ao diálogo e pela unidade nacional, conforme o discurso de Lula, na prática não teve muito efeito. Essa foi a linha prometida pelo petista desde o início de seu governo, mas sua personalidade política, a polarização com a direita e o clima constante de campanha com vistas a 2026 impediram a institucionalização dessa data, pelo menos ontem, como símbolo de todas as correntes ideológicas pela defesa do regime democrático. Uma das mostras de que o evento foi mesmo politizado está na ausência dos chefes da Câmara e do Senado, em recesso parlamentar em Alagoas, no caso do deputado Arthur Lira (PP), e de Rodrigo Pacheco (PSD-MG), em viagem ao exterior, assim como o presidente do STF, Luís Roberto Barroso. Lira, que precisa manter coesa a maioria praticamente garantida para reeleger seu sucessor Hugo Motta (Republicanos-PB) e Pacheco, que pode disputar o Governo de Minras Gerais, transitam em várias frentes políticas, inclusive a do grupo de Bolsonaro. Em seu discurso, o presidente aproveitou a onda do sucesso do prêmio do Globo de Ouro a Fernanda Torres, referindo-se ao filme Ainda estamos aqui, como forma de ressaltar que a democracia venceu. Mas o petista não seguiu as recomendações de seus aliados, e levou os comandantes das Forças Armadas. A história do 8 de Janeiro ainda está sendo redigida, com as investigações sobre a suposta tentativa de golpe, com a Polícia Federal apontando um plano de militares do entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro para assassinar Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, aguardando-se denúncia a ser feita pela Procuradoria-Geral da República. A cerimônia do 8 de Janeiro coincide com o tumulto político simultâneo de várias democracias mundiais, consolidadas ou não, da Coreia do Sul à Alemanha, Áustria e França, além da posse de Donald Trump nos Estados Unidos, no dia 20. Nos vários países há a discussão sobre a democracia ameaçada e o avanço de grupos radicais, portanto, um tema que não é apenas partidário, mas de interesse de toda a sociedade que preza a liberdade e as instituições fortalecidas.