(Reprodução Facebook Nicolás Maduro) Não surpreende que as autoridades venezuelanas estejam agora à caça do opositor que reivindica a vitória nas eleições de 28 de julho, Edmundo González Urrutia. Como se suspeitava, o Acordo de Barbados, assinado no ano passado por Nicolás Maduro e adversários, com intermediação importante do Brasil, não passou de oportunidade para o chavista ganhar tempo. Ao longo dos meses, o regime impossibilitou a participação de rivais no pleito e ampliou o controle sobre a Justiça e o Conselho Nacional Eleitoral – mas não conseguiu escapar das acusações de fraude. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! A oposição liderada por María Corina Machado, impedida de exercer cargos públicos, lançou Urrutia como candidato único e afirma ter copiado e divulgado na internet 80% das atas que detalham o resultado das urnas. Segundo ela, Urrutia venceu com 67% dos votos. Mas Maduro diz que conquistou pouco mais de 50% e agora a Justiça deu ordem de prisão a Urrutia. Em uma lista extensa de crimes, Urrutia é investigado como usurpador de funções, falsificador de documentos públicos, incitador à desobediência, conspirador e sabotador por denunciar fraude eleitoral. Nos últimos dias, segundo reportagens, aumentou o número de venezuelanos que passam pela fronteira com o Brasil, em Pacaraima (RR), fugindo de uma economia em processo acelerado de desmanche. Maracaibo, próximo à Colômbia e antes próspera metrópole petrolífera, perdeu um quarto dos moradores e hoje tem população envelhecida, após a fuga dos jovens, e bairros desertos. A derrocada do país parece facilitar o controle autoritário do regime, com a saída dos descontentes e o abrigo dos aliados na máquina estatal. Afinidade ideológica entre governos não é problema, pois muitos brasileiros hoje admiram o ultradireitista argentino Javier Milei. Mas há tempos o regime venezuelano, assim como o nicaraguense, dava exemplos claros de uma ditadura. Porém, o PT reconheceu de forma expressa a reeleição de Maduro, enquanto o presidente Lula, que, mais sensível à cobertura da imprensa, às redes sociais e aos ataques no Congresso, não aceitou o resultado oficial. Ontem, finalmente o assessor especial da Presidência, Celso Amorim, criticou a ordem contra Urrutia e admitiu o que se sabia há muito tempo, que há uma escalada autoritária na Venezuela. Mas Maduro, antes mesmo dessa crise eleitoral, já era considerado ditador. Agora, o Brasil está amarrado a essa crise, que é humanitária pela fronteira em comum, e diplomática, pois há uma crescente pressão internacional para que os EUA façam algo efetivo, principalmente porque Rússia e China apoiam Maduro. Para o círculo próximo a Lula, é impensável buscar uma solução com os EUA, que hoje se baseia nas sanções econômicas, que empobrece a população, mas dificilmente derruba governos. Assim, Maduro ganha tempo para consolidar seu poder. Internamente, Lula será cobrado pelo naufrágio de sua política externa.