(Reprodução) O fato é tão inimaginável que chega a causar dúvida sobre sua veracidade. No Rio de Janeiro, na última semana, seis pacientes transplantados que estavam na fila de espera há anos testaram positivo para HIV, vírus que contraíram dos doadores dos órgãos. O sinal de alerta surgiu após um dos pacientes, dias após o transplante, apresentar problemas neurológicos. Constatada a contaminação, os demais doentes também foram submetidos a testes e comprovada a presença do HIV. Agora, todos os órgãos públicos direta ou indiretamente envolvidos, incluindo Polícia Federal, Ministério Público, Ministério da Saúde, Anvisa e a própria Secretaria da Saúde do Rio de Janeiro, correm para entender o que ocorreu, revisar procedimentos, punir o laboratório envolvido e até mudar os termos da portaria que regulamenta o Sistema Nacional de Transplantes, recrudescendo as regras que definem quem pode fazer os testes laboratoriais pré-transplantes. O episódio pode ser considerado gravíssimo, porque evidencia uma falha primária, que jamais poderia estar no rol das intercorrências geradas depois de um transplante. Preliminarmente, as autoridades do Rio suspeitam que o laboratório contratado, em caráter emergencial, não teve bem avaliadas suas especificidades para esse tipo de atuação, que exige redobrado controle, rechecagem de resultados e testes muito sensíveis não só para HIV, como todas as outras patologias transmissíveis pelo sangue: hepatites B e C, doença de Chagas e sífilis. Constatado o estrago, muitas medidas precisarão ser adotadas, e não apenas pelo Estado do Rio de Janeiro, mas pelos órgãos que lidam com transplantes em todo o País. Se houve negligência na contratação do laboratório, os responsáveis devem ser punidos exemplarmente, e a publicização desse processo deve acontecer de forma clara. Para além disso, é recomendável que as demais secretarias estaduais de saúde revisem seus processos, estabeleçam condutas que sejam periodicamente visitadas, como em uma renovação de credenciais. Ainda que o Ministério da Saúde estabeleça regras mais rígidas para definir quem pode ou não fazer os testes sorológicos em caso de transplante, nenhum processo pode correr solto, sem acompanhamento periódico, sem capacitação das equipes para novas formas de contaminação ou testes mais refinados que identifiquem mutações de vírus, por exemplo. Resta às autoridades envolvidas nesse caso, em especial, a empatia necessária para acompanhar esses seis pacientes contaminados, que guardavam esperança de uma nova vida a partir do transplante, e agora precisarão conviver com o fantasma do HIV, embora a Medicina esteja já bastante avançada no tratamento desses casos. São, porém, pacientes com saúde fragilizada e toda atenção é necessária. A sociedade, especialmente os que compõem a fila dos transplantes, aguarda providências, explicações e garantias de que tal fato jamais ocorrerá novamente.